“Aleppo(nica) - Um cartoon do autor português Vasco Gargalo sobre a guerra na Síria, inspirado em “Guernica”, de Picasso.
Poema sobre a guerra em ALEPO - Evento da página “Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen” (Facebook), em colaboração com a Fundação AFID Diferença, dia 1 de Abril de 2017, pelas 17 horas, no Auditório Dra. Maria Lutegarda, nas instalações daquela Fundação, em Alfragide.
(Dedicado a حلب Alepo)
É um prazer estar hoje aqui,
num dia fantástico,
sabendo que amanhã, Domingo,
outro dia fantástico nos espera!
E é tão bom, ter a certeza, a simples certeza,
de que amanhã outro dia nos espera,
sabendo que nem toda a gente tem esta simples certeza.
Muitos, nem sequer esta simples… esperança!
Hoje, em Alepo,
existe apenas a esperança do “hoje” – não mais que isto.
A esperança deste dia, tão-somente.
Da dor deste dia, tão carente.
Do choro deste dia, tão sentido.
Sabendo que amanhã, se… houver amanhã,
será apenas mais um dia,
mais uma porção de dor e de pranto.
Em Alepo os dias são singulares, únicos, efémeros…
São dias não vividos… tão apenas, sobrevividos, um a um.
Nós dizemos aos nossos filhos que têm um futuro,
que podem lutar por mil sonhos,
que têm toda uma vida pela frente.
E o que se pode dizer aos filhos de Alepo?
O que lhe podem dizer os pais?
O que lhe podemos dizer nós?
O que lhe pode dizer a comunidade internacional?
Que estão as suas rotas interrompidas?
Os seus caminhos destruídos?
Que são crianças sem amanhã?
E reparem que, Alepo, não é apenas Alepo.
Alepo é o símbolo de muitos locais em guerra.
É uma vasta geografia de dor e morte,
a lembrar-nos o quanto ainda somos animais.
Selvagens. Animais selvagens.
Mais que selvagens,
pois nenhum animal mata por ganância como o homem.
Nenhum animal é mais sofisticado na crueldade do que o homem.
Nenhum animal vence o homem no singular requinte de malvadez.
Nenhum animal, ao contrário do homem, tomou a guerra como… negócio!
O negócio que alimenta uns quantos na desgraça de muitos.
E atenção…
Que a guerra não é um conceito abstrato….
A guerra é real, tem gente, muita gente.
A guerra tem nome, muitos nomes.
A guerra é a multinacional empresa
que produz viúvas, órfãos, mães desoladas…
E é por isso necessário – e eu diria urgente – gritar que:
– Alepo somos nós.
Atenção: Não é o “Je suis Alepo” para por no Facebook
para aliviar a consciência de não fazer mais nada…
Alepo somo nós.
Somos nós, verdadeiramente, pois estamos de braços cruzados
perante uma guerra que alastra e nos bate à porta…
porque é o extremismo religioso, o extremismo económico,
o extremismo político…. que floresce a cada dia
e há uma sombra negra que nos envolve.
É preciso despertar, despertar, despertar…
Porque a guerra não um tema abstracto, não é estatística
Não é um simples título de jornal, uma imagem de arquivo,
uma reportagem de dois minutos que vemos na TV enquanto jantamos…
Amanhã nós podemos ser o tema dessa reportagem
Amanhã nós podemos ser os filhos órfãos de um novo Alepo
Amanhã nós podemos ser os mortos de um outro Alepo.
Vejam como os atentados chegam até nós.
Vejam como os extremismos nos tocam.
Como a xenofobia, alastra no meio de nós.
Como as ideologias radicais ganham adeptos.
como se desagrega a Europa.
Como se perdem os valores solidários.
Como nos vamos esvaziando de sonhos,
de esperanças…de projectos comuns
Recordo que …. Ffi assim que começaram as grandes guerras…
São por isso tempos de enorme e perigosa incerteza…
com os fantasmas que nós alimentamos
com os políticos que nós elegemos às cegas
com uma política internacional dominada por interesses privados
É por isso que temos de olhar para Alepo como se fossemos nós
E batendo com a mão no peito dizer:
– Seria bom não ter que ensinar as aves a voar só para poderem fugir.
Seria bom que os olhos das crianças
fossem para algo bem mais útil que chorar.
Seria bom que as pontes, efectivamente,
unissem as duas margens, mas que não desprezassem as águas.
Seria bom que as sementes deitadas à terra
não fossem para adubar, mas efectivamente, para florescer.
Que as janelas pudessem continuar abertas.
Que quando nos batessem à porta, à fronteira,
pudéssemos dizer entre,
em vez do habitual quem é? O que querem?
Sim, tudo isso seria bom . . .
Seria bom, muito bom mesmo…
continuar a ter seguro o dia de amanhã,
ter certo o sol de amanhã,
ter certos os sorrisos de amanhã,
ter certos os bons-dias de amanhã!
Os beijos, as flores, os pássaros,
as pessoas amadas, os livros,
o pão, o meu Benfica, a bica, o jornal.
Ah, sim, muito bom…
continuar a ter a certeza de haver um amanhã!
Mas…. com o nosso silencio,
com o nosso cruzar de braços,
com os nossos olhos cerrados,
um dia vamos perder esta certeza…!
Meus amigos
Dizem que de uma dúvida de Deus, nasceu o Diabo!
Por isso, quando falo das coisas belas há sempre o reverso da medalha.
Estais sempre vós…
SENHORES DO BEM E DO MAL
E para vós falo…
Vós, que pretendeis alterar tudo,
mexer com tudo, deitar tudo a perder. . .
Vós que nunca sabereis,
ver o ondular garboso de um peixe sem querer metê-lo num aquário.
Ver flores, sem querer colhê-las.
Ver estrelas, sem querer comprá-las.
Vós, que desconheceis o verbo amar.
e idolatrais o verbo possuir.
não cessais o vosso jogo de xadrez…
e não olhais a meios para atingir os fins
Que morram crianças em Alepo ou onde quer que seja…
que morram!
Que vos interessa?
Será apenas mais uma das guerras que vós alimentais para vosso lucro.
Mas, quem sabe, um dia, tereis entre mãos
não a Terceira Guerra Mundial, mas sim, a Última!
Aquela em ninguém não reste para contar!
E porque sois tão insensíveis?
Porque é que é fácil matar, Senhores, quando nada vemos.
Quando estamos longe da dor…
Se olhásseis em cada rosto de criança que matais,
– poderíeis dormir?
Vós, Senhores do Bem e do Mal,
apesar de envoltos em panóplias de oiro,
continuais uns trogloditas por humanizar!
Lembrai-vos que os mortos são filhos da guerra!
Se não quereis ir aos campos de batalha, aos campos de refugiados,
pelo menos, observais nos filmes, na tv, os horrores da vossa luta armada.
Assumi os vossos horrores.
Colocai nas estantes,
– mesmo ao lado das vossas chocalhantes medalhas -,
os braços tresmalhados de um soldado incógnito!
As caras desfiguradas dos que nunca mais se olharam ao espelho!
Guardai, de recordação, a cadeira de rodas
daquele que não mais voltou a andar!
Olhai de vez em quando,
os olhos vazios dos que nunca mais voltaram a pensar!
Visitai de quando em vez, as campas lavadas de lágrimas,
As tendas, os campos de concentração onde se refugiam os sem lar!
Dizei-me: quando há um jogo de pais,
vós ides jogar em nome daquele que deixastes órfão?
Sois vós que cuidais daquele pai,
que tolhido numa cama, chora agarrado a uma foto?
Sois vós que restituis aquele noivo que partiu, perdido, sem norte,
e que não lhe coube por melhor sorte mais que a morte?
Sois vós que ajudais a rezar,
aquele que é enclausurado
humilhado
torturado
castrado
supliciado
fuzilado?
Aquele que bebe nos charcos, sangue de um irmão que morreu?
Não, não sois vós!
E perguntais: que sei eu da morte?
Digo-vos …. Que aprendi a falar da morte,
com gente que nem sequer ainda morreu e já nem sequer é viva!
gente que se suicida sem pão!
gente e não ratos, que são os predadores das lixeiras!
Gente que adormece num leito de chuva e lama!
gente velha que morre entre cães!
Gente que sangra de embater em muros e portas cerradas!
gente que não tem futuro nem já forças para gritar!
Malditos sejais, Senhores! Maldita seja a vossa guerra!
Pouco a pouco, os céus e os mares ficarão violetas,
os prados acastanhados!
O vermelho do sangue, entrará na seiva das flores
e as pétalas serão vermelhas
Tudo será vermelho como rosas sem cheirar a rosas!
Tudo será vermelho como cravos sem cheirar a cravos!
Tudo será vermelho como sangue
só cheirando a dor, só cheirando a morte.
O último pássaro no céu será um abutre.
O último animal em terra uma hiena.
Mas, quando os homens caírem,
não restará ninguém para pintar de azul uma nesga de céu,
para pintar de doirado a estrela mais próxima!
E, no fundo, para quê tudo isto?
É que a vida… a vida, sabem, é uma curiosa maratona.
E a meta, por vezes longínqua, por vezes demasiado vizinha,
é sempre…imbatível!
Não importam os jogos de poder.
Não importam as loucuras pessoais.
Não importa a mesquinhez.
Não importa a hipocrisia.
A invejas, as traições.
Não importa nada de nada, a meta,
Senhores do Bem e do Mal,
vamos terminá-la todos ao mesmo nível. . .
sete palmos baixo terra,
No final, Senhores, de vós não restará ouro, petróleo, terras….
Quanto muito, uma estátua cheia de quistos e verdete…
não mais que isso.
E não sei se no outro mundo,
(inconquistável, vos digo desde já!)
não encontrareis aqueles que maltratastes em terra.
mas, uma coisa é certa:
– Tereis de prestar contas ao verdadeiro, ao único, ao inigualável,
… Senhor de todo o Bem e de todo o Mal
seja qual for o seu nome!…