Crónicas – Gazeta Lusófona (Suiça)

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ÍNDICE

Viajar é morrer… e renascer em tolerância!
A educação devia ser uma pasta do primeiro-ministro.
Um livro de filosofia como paraquedas
Cretinos Digitais

Que falta nos faz Eça de Queirós

Dia 16 de Janeiro, a RTP estreia uma série fabulosa: “O Crime do Padre Amaro”. Tive a oportunidade de assistir à estreia e recomendo vivamente que não percam esta grande realização, em directo ou na RTP Play. Vão encontrar um alargado naipe de grandes actores, uma fotografia cuidada, uma dinâmica de acção que nos prende – a impressão digital de Leonel Vieira, o realizador e produtor.

Eça de Queirós foi o mais importante escritor do realismo português e regressar ao seu mundo ficcional é sempre um prazer. As suas personagens tornaram-se icónicas na literatura portuguesa. Afastando-se do romantismo que fazia furor em Portugal, Eça lançou um olhar reprobatório à sociedade de então, com duras críticas à burguesia portuguesa, à classe política e à corrupção da Igreja. A classe com que expunha o ridículo da sociedade nos seus romances, valeram-lhe a intemporalidade. Com as devidas diferenças, a verdade é que podemos regressar aos seus textos e olhar para os dias de hoje, tendo-os como actuais.

E pergunto-me, que livros escreveria o Eça de Queirós do século XXI?

Nestes tempos modernos, quem seriam os inspiradores das suas personagens? Sobre quem recairiam as farpas do seu olhar aprimorado e crítico?

Quem seriam os padres ‘Amaro’ numa igreja católica a tropeçar na pedofilia? Que diriam os seus personagens, dos emergentes movimentos LGBTQIA+, da eutanásia, do aborto?

Que falaria da ‘socialite’ das revistas cor-de-rosa? Dos novos ‘influencers’ sociais? Das paroladas televisões a que estamos sujeitos? Das intimidades expostas no ‘reality shows’?

Que palavras de escárnio teria para os estados desunidos da Europa? Quem seriam as figuras d’Os Maias actuais, num Portugal com figuras como José Sócrates, Cavaco Silva, ou governo esboroado de António Costa? Voaria na TAP para Paris?

Que livro escreveria sobre banqueiros como Oliveira Costa, Ricardo Salgado ou o malogrado João Rendeiro?

Que falta nos faz Eça de Queirós para caricaturar os tempos que vivemos, e para nos recordar que ainda assim, a realidade consegue ser bem mais inventiva que a ficção dos grandes escritores. A sociedade alienada dos telemóveis, das redes sociais, das novelas e sensaborias, nem se apercebe do vazio em que se vive, em que a arte de uns é vencida pelo espalhafato de outros, os valores de uns são derrotados pelos expedientes ordinários de muitos, em que o ser é substituído pelo parecer. Mas, quem sabe, o mais certo é que Eça de Queirós não vendesse um único livro nos tempos modernos, com os top’s das livrarias inundados por pechisbeques de frases feitas, com os venais jornalistas a regurgitar sinopses de livros que não leram. A quem interessava um escritor incómodo?

 

JAN:23


 

 

“The economy, stupid!”

Conhecem a alegoria da caverna, de Platão? É uma alegoria de intenção filósofo-pedagógica, escrita pelo filósofo grego Platão, na obra intitulada “A República” (Livro VII). Pretendia exemplificar como o ser humano se pode libertar da condição de escuridão, que o aprisiona, por meio da luz da verdade. Em termos simples, a alegoria falava de pessoas que, acorrentadas viam nas paredes das cavernas, umas sombras provocadas pela luz de uma fogueira. Platão dizia que, para os prisioneiros, aquelas sombras eram a sua realidade, dado que não conheciam outra. E que, se um dos prisioneiros fosse libertado e forçado a olhar para o fogo e para os objetos que faziam as sombras, a luz iria ferir os seus olhos e tentaria voltar para a caverna, para aquilo a que estava acostumado, podia ver e acreditava.

Os holofotes da Comunicação Social também nos oferecem “sombras” que nós tomamos por verdades absolutas. Somos eternos “prisioneiros” e não nos damos conta.

Quando frequentei uma pós-graduação em Marketing Político, um professor da Universidade de Madrid, que trabalhara nos serviços de inteligência da NATO (já na reserva),disse-me algo que nunca esqueci: “A Coca-Cola é brincadeira. As grandes campanhas de marketing, começam, quando começam as notícias!” Depois enunciou vários acontecimentos internacionais em que ele tinha participado militarmente, e fez-nos compreender como todos tínhamos sido enganados. A invasão do Iraque, a guerra no Kosovo, e outros tantos acontecimentos… durante dois dias estive colado numa cadeira a ouvi-lo, incrédulo. Como um “prisioneiro libertado” em que a luz lhe feria os olhos, a luz do saber, do entender, do aperceber de que a realidade não eram as “sombras” que nos tinham sido oferecidas pela Comunicação Social.

Hoje, muitas pessoas continuam a não querer olhar para a luz, preferem continuar a acreditar nas versões oficiais. Preferem voltar para a “caverna” onde se sentem mais confortáveis. Querem acreditar que uns são os “bons” e os outros os “maus”. Parece-lhes mais aceitável o mundo. Como quando contamos contos de fadas às crianças, para eles poderem dormir sem medos.

Muita gente continua a ser uma criança grande, continuam a precisar que lhes contem histórias que os deixem dormir sem pesadelos. Não querem fazer perguntas com medo das respostas. Odeiam quem lhes dê uma versão diferente dessa história. Insultam quem se atreve a pensar, a dúvidar, a levantar questões.

Por mim, há muito que percebi, que a realidade do mundo não é a que nos contam. Não é, nem nunca foi. O mundo não é a preto e branco. E detesto tanto os ditadores como os hipócritas que nos contam histórias de fadas, os assassinos como os cobardes, os ditadores como os tiranos dissimulados de democratas. E detesto que, no fim, chegue sempre à velha frase: “The economy, stupid!”. É sempre a economia que movimenta o mundo, não os valores humanos, não o ambiente, não a democracia, não porra nenhuma de jeito, que não seja a economia. Somos tão estúpidos em acreditar no contrário. Já agora, acham que tudo o que se passa em torno da Ucrânia, é sobre o quê?

DEZ:22

 

 

 


Viajar é morrer… e renascer em tolerância!

Por vezes perguntam-me: se ganhasses o euromilhões, o que comprarias? Repito sempre que, comprava apenas bilhetes de avião. Viajar é uma das preciosidades da vida.

Escreveu Miguel Torga no seu “Diário” (1937) que, “viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além.” É bem certo. Gosto da expressão “deixar de ser manjerico à janela”, ou seja, deixar a delicadeza da nossa zona de conforto, para enfrentar reptos, para enfrentar o desconhecido. Foi esse arrojo, que formou os navegadores que nos deram a época gloriosa da expansão marítima portuguesa. Exactamente, para falar destes intrépidos marinheiros, estive recentemente nas ilhas de Bali, Indonésia, a participar no Ubud Writers & Readers Festival.

É sabido que são umas ilhas de espantosa beleza, a internet mostra isso. Mas, para ver a paisagem humana é preciso estar lá e ter a ousadia de ir além dos resorts turísticos, contactar as pessoas, comer num restaurante de rua, andar de mota, vestir uma roupa tradicional para entrar nos templos, acender incenso… se vamos a Paris é fugir da torre Eiffel, se vamos a Londres temos de deixar de ver as horas no Big Ben. É preciso conhecer as ruelas longe dos cartões turísticos, onde estão as pessoas reais e a cultura local. Este mergulho noutras culturas nunca deixa que regressemos iguais. Vou guardar de Bali a generosidade da natureza e das pessoas. A simplicidade daquelas gentes que, nos acolhem com sorrisos, nos mostram os seus deuses, e partilham a sua alegria pelas ruas.

O festival de Ubud reuniu mais de 150 escritores e investigadores de todo o mundo – também músicos e pintores -, e teve umas largas centenas de participantes. E neste caldo cultural com variadas gentes a defender as suas culturas e os seus pensares, foi importante notar o clima de partilha e contentamento que se vivia. Havia um denominador comum: a tolerância, a que Gandhi chamava “a lei de ouro do comportamento humano”.

Não deixa de ser contrastante com o que se vive hoje no mundo, onde crescem os extremismos sociais, ideológicos e económicos, onde a violência das ruas e as guerras entre povos ganham uma dimensão assustadora. Temos de travar esta onda gigante e avassaladora. “Há um limite em que a tolerância deixa de ser virtude”, ensinava Edmund Burke. Mas, é preciso viajar para vermos que há mundos diferentes daqueles que nos entram em casa pela comunicação social sedenta de sangue e ódio.

Perceber que o entendimento entre pessoas de diferentes origens ainda é possível e enriquecedor. Queria deixar-lhes aqui esta mensagem de esperança, talvez ingénua, mas que muito me alentou após esta viagem onde me pude desfazer em espanto pelo mundo além. Séneca dizia que quando fugimos, seguimos em companhia de nós próprios e rematava: “é de alma que precisas de mudar, não de clima.” Mas, meus amigos, mudar de clima ajuda muito ao renascer da alma que viaja connosco.

OUT:22


A educação devia ser uma pasta do primeiro-ministro.

Há bons e maus professores. Sempre foi assim, e sempre será. Tive professores que me acrescentaram e outros que me diminuíram. Outros, nem sequer os recordo. Fui o orgulho de uns e a decepção de outros, pois nós também somos resposta ao que nos oferecem. E, confesso, sinto remorsos por não ter correspondido ao esforço de alguns, sobretudo no secundário. Lamento.

Mais do que entender as matérias — quero acreditar que todos estavam capacitados —, foram as suas posturas humanas que fizeram a diferença. Recordo os que me captaram a atenção, me motivaram, me deram uma nova visão do mundo, e me elevaram pelo seu esforço e exigência. Recordo os que tentaram e deram o seu melhor, mesmo que eu não tenha correspondido à altura.

No curto espaço de tempo em que lecionei no Instituto Politécnico de Setúbal, procurei ser diferente. Não sei se consegui deixar a marca em alguém, mas esforcei-me nesse sentido.

Ser professor é algo nobre, pois ajuda a moldar seres humanos e a preparar gerações. O futuro do nosso país depende das pessoas que hoje estão nas cadeiras das escolas, nas salas das nossas universidades. Mais que o país, diria o mundo.

Por ser uma profissão honrosa, havia muitos candidatos. Durante anos, muitos candidatos ficavam sem colocação. Agora, a realidade é outra — faltam professores. Em Portugal e na diáspora.

“Do nosso lado, as coisas estão muito bem preparadas, mas há uma nuvem negra no panorama educativo nacional que pode ter implicações no decurso do ano letivo”, disse à Lusa o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas.

O que levou a tudo isto? Creio que um longo caminho de erros, em que se perderam pessoas e capacitações: a precarização das condições de trabalho, em que a classe foi perdendo regalias e ganhos salariais, o facto de ficarem colocados longe de casa e assoberbados de burocracias, o enfrentarem novas realidades sociais que levam ao desgaste físico e mental dos profissionais do ensino.

Um traço simplista, reconheço. Esta é uma realidade muito complexa. Mas, a verdade, é que fomos perdendo professores, bons professores. Fomos ficando com professores desanimados e desmotivados. Aos poucos, fomos ficando com professores sem vocação e impreparados pedagogicamente. Hoje em dia, os bons professores vão escasseando, estão cansados e desgastados. Outros estão doentes, e muitos a rezar para que chegue logo o tempo da aposentação. Quem coloca em si patamares de exigência, sente que não tem condições para se manter ou regressar à docência. Por isso se afastam quando podem.

Acontece que, a falta de professores, ou a desqualificação da classe, é um problema grave. Não se trata de uma profissão qualquer — esta é uma área estratégica. Ao descuidar a formação das novas gerações, estamos a minar o futuro do país, a capacidade de ter uma sociedade formada, com inteligência crítica, com valores morais e sociais, com preparação técnica e humana para desenvolver o país. Eu diria mesmo que, a educação devia ser uma pasta sob a responsabilidade directa do primeiro-ministro.

SET:22

 


 

Um livro de filosofia como paraquedas.

Perguntam: qual foi o livro da sua vida? As pessoas respondem sempre com grandes clássicos da literatura universal, a ‘Bíblia’, ‘Os Lusíadas’, ‘Guerra e Paz’, ‘Moby Dick’, ‘A Divina Comédia’ ou um qualquer romance de Fátima Lopes. Também já dei por mim a responder ‘Os Maias’ e coisas parecidas. Acredito que estes livros podem ter um impacto tremendo em quem os lê, que podem mudar pensamentos, linhas de vida.

Um dos escritor que mais me influenciou foi Edgar Rice Burroughs. Talvez não saibam que é, mas foi o criador do “Tarzan” – uma longa colecção de livro entusiasmantes que ainda guardo na minha estante. Muitos li-os na biblioteca municipal da Covilhã. Enquanto outros jogavam á bola, foram tardes e tardes de leitura, que me alimentaram o imaginário e a força da escrita. Os livros dependem também da altura em que os lemos. Por razões evidentes, ‘Memórias de uma Cantora Alemã’ de W. Schroeder-Deurient, teve em mim um impacto na juventude, que hoje não teria.

Outros influenciaram a minha forma de escrever, como é o caso de Aquilino Ribeiro, que me encheu a cabeça de palavras. Quem me libertou dos clássicos, foi António Lobo Antunes. Marcou-me profundamente, da mesma forma que algumas “grandes vozes da nova literatura portuguesa”, não me beliscaram em nada e deixei os seus livros por acabar de ler. ‘A Insustentável Leveza do Ser’ de Kundera marcou a escrita do meu primeiro romance – e, hoje, não encontro esse livro nas minhas prateleiras. O que me recorda que não se devem emprestar livros.

Por falar nisso, observando as prateleiras lá de casa, dei com a lombada meio rota (sinal de uso) de um livro do meu 10º Ano – “Temas de Filosofia, de Maria Luísa Guerra. O que faz um manual escolar entre as minhas obras predilectas?

Simples. Foi um livro que aos 15 anos me marcou, me abriu a mente, me mostrou uma outra forma de olhar o mundo. Diz um conhecido pensamento que: “A mente é como um paraquedas, só funciona depois de aberta”. A frase é atribuída a Thomas Dewar, a Albert Einstein, a Matheus Rocha (seja ele quem for, não faço ideia), a Frank Zappa, a Clarice Linspector, enfim… o importante é que regista uma grande verdade.

Este livro, foi ficando na minha biblioteca porque me abriu os horizontes para Sartre, Kant, Nietzsche… um simples manual escolar, mas que foi o despoletar de interrogações sobre a condição humana, o papel de Deus, a relevância da arte… Depois deste livro, com imensos excertos de verdadeiros clássicos, nunca mais voltei a ser o mesmo. Que obra se pode orgulhar de mudar tanto uma pessoa? Um livro “simples” escolar.

Também foi interessante, ver que folhas marquei: “Os valores éticos no humanismo contemporâneo”, “As relações do homem com a divindade”, entre outras…

As frases que sublinhei: “O homem é uma corda estendida entre a besta e o super-homem, uma corda sobre o abismo” (Nietzsche). Imaginem um jovem de 15 anos, de formação católica, a interrogar-se se a existência de Deus era uma verdade evidente, demonstrada, indiscutível? E a ler que “A fé é diferente da prova” (Pascal) e que “um Deus Provado não é Deus; seria apenas uma coisa no mundo” (Karl Jasper) e que seria “uma blasfémia” (Maeterlinck) supor que pudesse entrar no nosso entendimento. Por outro lado, Sartre a dizer que “estamos sós”, e o homem está condenado a ser livre. “Condenado porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer…” Existir é decidir – sublinhei. Textos que falavam de que recusando Deus, o homem sempre procurava Deus, mesmo que Nietzsche grite em alemão: Gott ist tot – “Deus está morto” e nos desafie: ”Sê tu próprio!”

E a justiça? E o Estado? E o belo? E a perturbação da arte? … Um livro aberto, uma mente que não voltou a ser a mesma. “Qual foi o livro da sua vida?” – que posso eu responder? ‘A Odisseia’ de Homero? ‘Dom Quixote de la Mancha’, de Cervantes? Ou um “simples” livro de temas de filosofia do 10º ano?…

Agosto.22


Quando foi que ofereceu um livro ao seu filho?

Em 2021, 61% dos portugueses não leu um único livro. E dos que leram, 39% confessam que leram muito pouco. Os chamados “grandes leitores”, os que leem mais de 20 livros, são apenas 1%.

Viciadas em redes sociais, as novas gerações, não vão ajudar a melhorar os números, antes pelo contrário. Só querem mensagens pequenas. Tudo o que tenha mais de 5 linhas já parece ter a complexidade d’“Os Lusíadas”. Se por obrigação escolar, precisam de ler um livro, procuram um resumo na internet e, de preferência, um vídeo no youtube que lhes conte a história. Não falo de todos, é claro, mas de uma grande maioria.

Houve gerações que estavam afastadas da cultura dos livros, porque não sabiam ler ou não tinham acesso a bibliotecas. Faziam sacrifícios para se cultivarem e poderem comprar um livro. Hoje temos ensino básico para todos, livrarias, bibliotecas. Não há desculpas. É preciso dizer claramente: hoje, não ler é uma opção. E como todas as decisões de vida, tem as suas consequências.

Ler exercita a mente, activa a memória, desenvolve a compreensão, fortalece a criatividade, enriquece o vocabulário, melhora a escrita, aumenta a concentração, proporciona conhecimentos, valoriza uma pessoa tornando-a mais culta e comunicativa, integrando-a melhor na sociedade e nos meios profissionais. Dirão que ver filmes e séries tem o mesmo efeito. Não é verdade. Porque a imagem em movimento torna-nos passivos, não nos exercitam tanto a mente. São bons complementos – eu vejo inúmeras séries, mas não substituem a leitura atenta. Só que para isso é preciso encontrar um tempo de paz e sossego, de concentração, e a sociedade actual está formatada para o barulho, para os telemóveis, para a internet, para a televisão de apresentadores aos gritos para chamar a atenção, para os festivais…

Consequências: um dia mais tarde, verão os problemas neurológicos que esta abstinência lhes produz e no presente, podia referir confrangedoras entrevistas de emprego com jovens que não sabem articular ideias simples, ou dar conta de e-mail que não se distinguem de más conversas de café, mas não quero ser demasiado crítico. Prefiro concentrar-me nos muitos que gostam de livros, de discutir ideias fundamentadas em conhecimento, escrevem os seus textos e declamam os seus poemas… e sabem porque é que estes jovens são diferentes? Porque tiveram diferentes exemplos e diferentes exigências em casa.

Voltando ao estudo referido, a grande maioria dos inquiridos assume que os pais nunca os levaram a uma livraria (71%), a uma feira do livro (75%) ou a uma biblioteca (77%). Por outro lado, 47% assumem que os pais nunca lhes ofereceram um livro e 54% afirmam que nunca lhes leram um livro de histórias. As novas gerações ainda são responsabilidades nossas. Por isso pergunto: e você, quando foi que ofereceu um livro ao seu filho?

Julho.22

 


 

Os “Cretinos Digitais”

A descoberta é simples e assustadora. Estamos perante uma nova geração em que, pela primeira vez, os filhos terão um QI — Quociente de Inteligência inferior ao dos pais. Isto significa que estamos perante um ponto de viragem na evolução e que o ser humano está a regredir em termos cognitivos e na sua capacidade intelectual. Não é uma opinião, são estudos neurológicos que o comprovam.

Já o biólogo e neurocientista Fabiano de Abreu, tem chamado a atenção para este retrocesso. Ainda no mês passado, chocou as pessoas numa intervenção na APG – Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas, em Coimbra, onde partilhei o painel com ele. O facto de os jovens terem uma exposição excessiva aos diferentes ecrãs está a torná-los passivos, e perdidos num turbilhão de informações estéreis e isso não lhes exercita o cérebro. A pandemia e o recolhimento dos jovens veio agravar esta situação.

É estranho, pois parecia que as novas gerações eram até bem mais avançadas. Qualquer criança já mexe com um telemóvel com maior facilidade que um adulto. Acontece que esta componente prática da utilização das novas tecnologias é diferente da capacidade de entender e gerir os conteúdos. Os jovens têm toda a informação na ponta dos dedos, de uma forma democrática e livre, mas isso não os deixa mais inteligentes, pelo contrário.

O neurocientista francês Michel Desmurget fala mesmo em “descerebração” a uma escala inédita e disso nos dá conta no livro “A Fábrica dos Cretinos Digitais”. Aponta o dedo à indústria dos videojogos e redes sociais que, na sua generalidade, não oferecem nada de positivo, mas os jovens passam mais tempo nas redes sociais que na escola, o que é preocupante. Cita mesmo Chris Anderson, ex-editor da revista Wired, em que ele diz que, numa escala do açúcar ao crack, os ecrãs estão mais perto do crack. E assim, perante esta droga de entretenimento, não tem dúvidas em recomendar tempo zero de ecrã antes dos seis anos e depois dos seis anos, não mais de 30 minutos por dia (incluído a televisão).

Segundo ele, os jovens ficam sedentários e introvertidos, o que lhes traz problemas de saúde e sociais, perdem capacidade de concentração, de leitura e, sobretudo, de interpretação. Alerta para os défices de linguagem das gerações que entraram nas universidades, e a sua capacidade de absorver informação.

Basta olharmos para as nossas próprias redes sociais, para percebermos que ninguém lê mais de três linhas. Mesmo assim, fazem comentários absurdos, de quem não entendeu ou não leu até ao fim.

Não serei tão radical como Michel Desmurget, mas que algo terá de ser feito para travar esta alienação digital. Os jovens precisam ter uma vida além do ecrã, uma vida activa para o corpo e para a mente. Ler um livro é mais cansativo que ver mil coisas na internet. Exige capacidade de concentração, disposição para exercer uma só coisa durante um certo tempo, uso activo do cérebro na leitura, interpretação e imaginação. Conversar com as pessoas também forma a nossa capacidade emocional e relacional. Mas ir na onda do ‘Scroll Down’ é uma alienação de horas sem grande retorno que não seja o simples passar do tempo, de forma passiva e que em nada exercita o cérebro. Tudo o que não se exercita, morre. Aqui fica a chamada de atenção.

Maio:22

 


Portugal é uma diáspora

Portugal é uma diáspora, mas este povo disperso, deve levar uma bagagem cultural para o caminho. As bússulas apontam a norte, e é a partir dessa referência  que todos os outros latitudes são traçadas. Todos nós precisamos de um ponto referêncial para nos reconhecermos como pessoas, todos nós precisamos de um sólido ponto de Arquimedes para nos alavancarmos como povo. Essa referência é a nossa terra mátria, Portugal – o país com as fronteiras mais antigas da Europa.

E um país é a sua cultura (popular e erudita), formada pela história, tradições e saberes, pelos seus vultos nas diferentes áres, pela sua personalidade colectiva pelo seu pensamento nacional. Por isso, onde quer que se esteja – Europa, África, Ásia, Américas -, é imprescindível cuidar da língua materna e estar atento ao pulsar do país. É a nossa origem e, sabemos, que todo o porto de partida influencia qualquer viagem…  e ser português é, decididamente, ter um olhar diferente e peculiar sobre o mundo.

Mas a cultura de um povo é dinâmica, desenvolvida aos longos dos tempos num persistente processo de transformação e adaptação a um mundo em mudança. Há valores que se dissipam e outros que se somam ao sabor de novas eras civilizacionais. O que significa, que esse povo português disperso pelo mundo, são linhas avançadas na mudança desse paradigma cultural. Quer regressem ou não a Portugal, serão influenciadores do que é ser português e da sua cultura. Portugal foi diferente depois de alguns intrépidos terem ido às Índias ou descoberto o Brasil, da mesma maneira que nos transformamos enquanto povo, quando outras arrojadas geração vão para França, Alemanha ou Suíça… os emigrantes não levaram Portugal – são Portugal.

Maio: 2021