O Céu do Mar
Excerto
«Mãe, quero ir para o mar…»,
dizia ele de pele morena e jeito vivaço. «O mar ainda não cabe nos olhos de
Deus, por isso deixa-te estar… envelhece!»
O catraio baixa os olhos com
tristeza, mas ainda pergunta: «Com que idade o pai foi para o mar?». Carminda
mostra-se inquieta e irritada. «Não me lembra. Mas sei a idade que tinha quando
o mar foi para dentro dele e não o deixou regressar. Não me peças para partir
se não podes assegurar que voltas.» Pedro sentia-se imortal como todos os
jovens, por isso garantia à mãe que voltaria, que voltaria sempre. Mas as
viúvas são duras de ouvido, não ouvem o lhes lembra a morte - por isso fez
orelhas moucas às súplicas do filho.
«O mar é traiçoeiro, não o quero
dentro de ti». Pedro ainda argumenta como pode, mas ela não o ouve. As suas
palavras eram como o rumorejar das ondas - vêm e vão, depois perdem-se na maré
baixa.
«Lembra-te, do mar não vem só peixe. Também chegam tábuas e mortos», diz ela, enquanto mexe a sopa de cação que está ao lume. «Do mar não vem só peixe, do mar não vem só peixe…» repete a mulher que não esquece a cadeira vazia ao seu lado.
Pedro chamara a mulher para a bóia
dos seus braços. Não sabia se para a salvar, se para ele se salvar com ela. O
mastro estava alquebrado com o temporal, o leme desfeito, o cavername da
embarcação inundado. Andavam à rola, rodeados de paredões de sal e espuma, como
num cárcere de condenados. A água trazia mortos embrulhados nas ondas, madeiras
quebradas, restos de velas.
«Do
mar não vem só peixe, não vem só peixe…»
E no meio da tormenta há um braço
levantado, um grito, um homem em desespero agarrado a umas bóias de cortiça.
Pedro reconhece-o de imediato.
«Uma vez, era eu moço ainda, tive de saltar ao mar para ir buscar teu
pai aos fundos…», dissera-lhe o ti’Albino. Pedro pediu à mulher que se
agarrasse à cana do leme e, sem mais nada dizer, atirou-se às cegas para o
rebolo do mar. Entrou na friagem do oceano para pagar a dívida moral herdada de
um pai que não conhecera. Sentiu como as águas tomavam conta dele, como o
carregavam no seu colo ondulante - queria nadar em direcção ao mestre Albino
mas as vagas levavam-no para longe, cada vez para mais longe.
«Tens a mesma loucura nos olhos
que o matou, a mesma loucura…», gritou-lhe o homem. «A mesma loucura». Pedro
entrou no remoinho das águas e aos poucos, deixou que mar entrasse dentro dele
– que entrasse dentro dele.
«Vomita-o!”, gritava Carminda
agarrada ao búzio. «Não te deixes levar… vomita-o! Vomita-o!»

