Cemitério de Pardais
Excerto
"Costumo ir ao meu barbeiro de sempre, o Norberto. Um daqueles barbeiros de cadeira reclinável, que ainda conheci com o pincel em copo de latão, a afiar o fio da navalha na correia e a colocar a pedra de alume nos cortes do rosto. Passaram os anos, mas pouca coisa mudou naquela casa. Até as conversas costumam ser as mesmas. Uns longos cinquenta anos a falar a mesma coisa com roupagens novas: futebol, mulheres, mexericos, um pouco de política lá mais para o fim, depois da revolução. Por essa altura também mudou o calendário do Eusébio. Deu lugar a umas mulheres meio-despidas. Coisas da liberdade.
Fui lá a semana passada. A barbearia estava fechada. Há muito que o Norberto andava queixoso. Muito tempo de pé, coitado, tinha a coluna martirizada. Fechou sem data de abertura. Tenho para mim que já não abre. Como um dia não abriu o sapateiro; como não abriu o calista; como não abriu o alfaiate; como não abriu o latoeiro; como não abriu o chapeleiro. O que foi uma grande parte do meu mundo, está a desaparecer. Como desapareceu a carroça do petrolino que, porta-a-porta, vendia o sabão, o azeite, o petróleo. Como desapareceu a leiteira que vinha aqui ao prédio com o cântaro à cabeça, ou mesmo o engraxador de sapatos que tinha a caixa de madeira e o banco ali na praça, em frente da igreja.
Um dia batem-me à porta e eu também já não abro. Desapareço, como desapareceram os polícias-sinaleiros. Já não há nenhum. Resta só a lembrança dos homens de capacete branco sempre a esbracejar, os cabeças de giz – como lhes chamávamos por graça.
O que sobra de nós quando se perdem todas as nossas referências? No outro dia tive uma avaria na televisão. Vou mandar cá vir o Zé Luís. Foi ele que me a vendeu, ele logo a arranja – disse eu. Ó avô, o senhor Luís já fechou a loja há mais de um século, acho que até já morreu… – disse minha neta.
E continuou a falar como se nada fosse. Sem fazer reparo no meu silêncio. Sem perceber que me tinha arrancado um pedaço de passado, de memória. Que tinha mutilado uma referência marcante da minha vida. O Zé Luís era mais do que o Zé Luís, era a televisão, o frigorífico, a primeira máquina de lavar roupa, a primeira máquina de café…
O nome – Zé Luís – devia ter uma ficha eléctrica no Bilhete de Identidade, pois comprei-lhe todos os electrodomésticos. Já não há BI, agora é Cartão de Cidadão – diz minha neta. Sim, é verdade. Eu tenho um Bilhete de Identidade vitalício porque sou do tempo da outra senhora. Sou do tempo em que as coisas tinham o nome dos vendedores. Um nome que era a garantia das coisas. Se eu fosse ter com o Zé Luís, tenho a certeza de que ele ainda sabia de cabeça o modelo da minha televisão, o ano em que a tinha vendido, o preço. Quando lhe comprava alguma coisa, perguntava:
E isto é mesmo bom? Ele respondia, sempre igual: Você conhece-me!
Conhecia-o. Conhecia-o de toda uma vida. Como meu pai conhecia o pai dele. E meu avô conhecia o avô dele – comprara-lhe a primeira rádio. Aposto que lhe perguntou: E isto é mesmo bom? E aposto que ele lhe respondeu: Você conhece-me!
A minha neta não conhece a neta do Zé Luís, e nem lhe vai comprar nada porque a loja já fechou. Vai comprar o televisor num hipermercado. E se perguntar: E isto é mesmo bom?, eles respondem sem uma pinga de emoção: Leva aqui uma garantia de dois anos. Tem de guardar o papel e a factura. Dali a dois anos aquele empregado já foi substituído e aquele modelo de televisão já foi descontinuado, como eles dizem. Pelo preço do arranjo, é melhor comprar um novo! – dirá alguém. Estão instruídos para impingirem logo um modelo mais recente, com mais uma treta qualquer que não serve para nada, mas que aumenta o preço. Ahh, mas não se preocupe. Pode pagar em suaves prestações – sublinham de imediato. São treinados para isso.
Não, não foi o Zé Luís que partiu. Minha neta não compreende, mas foi uma parte do meu mundo que levou sumiço. O mundo em que as pessoas se conheciam e as coisas se arranjavam. Um tempo em que as coisas persistiam. Hoje, olho em volta e não tenho referências. Sinto-me perdido. Sinto-me descontinuado, como um modelo que não vale o custo do arranjo.
Só tenho uma vantagem: não há novos modelos de avô. Todos os modelos de avô que conheço são antigos. São todos uns clássicos, que é a palavra fina para dizer jarretas, melosos e chatos; uns tagarelas que contam as mesmas coisas milhares de vezes, ouvem mal e gostam de abraços longos. Apesar de tudo, continuam originais e insubstituíveis. Não há novos modelos de avô. Não há…
(...)
"Sou um velho sem interesse nenhum encafuado na cama com ceroulas e dois pares de meias, já não tenho inimigos sequer. Bem, resta-me apenas o último dos inimigos, o meu último duelo: o meu corpo.
O meu corpo está curvo – a cabeça leva dois palmos de avanço ao resto do corpo – parece uma vénia à morte. Ainda tenho o corpo como suplício lento. Só a ideia do fim, a ideia da morte, me ajuda a suportar esta vida sofrida. Deus me livre da eternidade humana, Deus me livre…
“Sobreviver nestas condições não é um dom, é um castigo. O inferno é permanecer, morrer é um acto de bondade que Deus nos concede. Morrer é um grito de liberdade, é despirmo-nos do padecimento, de tudo o que dói. É um acto de bondade que Deus nos concede, um bálsamo – uma última alegria.
(...)
A morte é uma vitória contra o corpo, transforma-o em sucata animal, em massa falida, em excremento, enquanto o espírito se liberta.
...dizia meu avô, De manhã em manhã, o carneiro perde a lã. Não morremos logo. (cito) Isso era fácil. Vamos é desvivificando – não sei se a palavra existe (…) vamos perdendo viço, vamos perdendo vida, até que nos arrastamos num lamento, e nos entregamos à dor, nos cansamos da existência.
(...)
…quantas vezes já pensei hoje na morte? Quantas? Umas quarenta? Talvez cinquenta, sei lá… demasiadas. Aqui estou nesta puta de solidão, cheio de dores, a pensar que vida não é um dom eterno e que por isso me aproximo do fim.
A idade e a morte vão-se olhando de longe, desconfiadas as duas. Com o passar do tempo, vão-se aproximando devagar, devagar, devagar, até que a velhice se torna amiga da morte. Uma amiga íntima, inseparável.
Partilham o cheiro, trocam confidências. Um dia a morte diz: Vens? E o que resta da nossa vida responde: Vamos! Não se diz que não a uma amiga assim.
Somos um pedaço de carne vencida, estamos tão desgastados do existir, cansados do mundo, da dor, do entulho que provocamos, que o melhor é deixarmo-nos ir, devagar, devagar, como quem adormece sem dores, sem o cansaço de carregar o cangalho velho do corpo.
A vida vai-nos fechando os olhos. E chega um momento em que é tão bom fechar os olhos. Sabe tão bem. É o que mais queremos. A maldita chega e nós achegamo-nos a ela, pomo-nos a jeito. Não lhe devíamos chamar morte, apenas remanso, quietação, sossego. Quando perdemos o medo da morte, ganhamos uma certa acalmia, soltamos uma amarra, libertamo-nos de um peso.
Vens? – pergunta ela.
Vou!..."

