Íntimo e universal

«Cemitério de Pardais é um livro sobre a arte de morrer bem, no sentido mais nobre e humanista da expressão. É uma meditação sobre o que significa ter vivido — ter amado de forma absoluta, ter perdido tudo e ainda assim permanecer inteiro na memória e na palavra. João Morgado escreve um romance que é simultaneamente íntimo e universal: fala de um homem específico, com uma vida específica, num dia específico, mas toca em algo que diz respeito a todos os que amam e que um dia serão velhos. A sua principal virtude é a coragem da escassez: não há enredo espectacular, não há reviravoltas, não há conflito exterior. Há apenas um homem, um dia, e uma vida inteira a pulsar dentro de cada hora. Isso exige confiança absoluta na palavra, e João Morgado tem-na. O dispositivo dos rodapés-aforísticos é a invenção formal mais original do livro — uma espécie de coro grego silencioso que comenta a acção sem a interromper. Se O Cemitério de Praga de Umberto Eco é a arquitectura monumental da memória como ficção histórica, e O Ano do Pensamento Mágico de Joan Didion é o luto como ensaio, Cemitério de Pardais ocupa um lugar próprio: é o monólogo de uma consciência que se despede, e faz-nos sentir, ao virar da última página, que assistimos a algo verdadeiro e necessário.»

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