GAIA: Deusa-Terra Parideira

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Poema da colectânea “O OLHAR DA LINGUA PORTUGUESA NO MUNDO”, 2016 _________________

 

Era uma vez… e era uma vez primeira.

E era uma vez ninguém, mas que se fez parideira.

E passou a ser alguém. E era uma vez uma mãe.

E era uma vez uma deusa – Gaia.

Não porque era deusa, mas porque era mãe.

E era uma vez o céu também, a cobrir a terra inteira.

E era uma vez a deusa-mãe a tirar filhos da algibeira.

E era uma vez muitos filhos de uma só mãe.

Alguns eram filhos dos filhos e eram filhos também.

 

E no útero de uma mãe cabe

a profundidade do mar e a altivez da montanha.

E por vezes cabe a dor tamanha

de gerar toda uma guerra de titãs.

Porque nem todos os filhos são manhãs,

e às vezes, quantas vezes, são revezes e escuridão,

porque se uns são filhos, os outros filhos são,

mas uns nascem na luz e outros não.

 

E por vezes, por vezes é preciso dar tempo ao tempo

para que a terra do céu seja decepada,

porque o útero que gera o amor também gera a espada.

 

E por vezes, quantas vezes, sabemos bem,

serem os filhos os carrascos de sua mãe.

e a morte será a filha derradeira,

da deusa-mãe, Gaia, terra-parideira.

 

 

In: O OLHAR DA LINGUA PORTUGUESA NO MUNDO
Instituto do Olhar Português, edição luso-brasileira, 2016