Vera Cruz

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Excerto

"...Largaram ferros nos idos dias de Março, quando no reino o Inverno ainda lhes tolhia os membros de frio. Depois tinham velejado por soalheiras paragens, afrontando de seguida o calor infernal dos trópicos, com insolações tais que eram muitos os que tinham visões e se atiravam às águas julgando aliviar assim os seus tormentos. A volta do mar largo levara-os a novas terras, tinham aportado nas costas da Vera Cruz, onde o calor trazia os homens e as mulheres como Deus a botara ao mundo.

Navegavam agora para o sul de África e logo o clima lhes deu sinais de mudança. Voltavam as noites cegas, escuras, sem estrelas. Surgiam os ventos fortes que se entranhavam na pele e se achegavam aos ossos já ensopados das chuvas. Não era por isso de admirar que todos andassem de penca no ar, olhos fixos no céu. Outra paisagem não havia e só dos altos vinham as novas – boas e más. Por estes dias, Pêro Escobar era um piloto nervoso. Media a força dos ventos, esmiuçava com os olhos cada nuvem de per si. E quando todos os céus ficaram pardos, de nuvens grossas e negras, com um olho claro a espreitar lá pelos meios, soube imediatamente que uma tormenta vinha a por eles com ventos rijos e mar de grande vaga.

Era o dia vinte e três de Maio. O piloto alertou Pedro Álvares e Simão de Miranda. “Vamos ter tempo grosso, precisamos cuidados!”. O capitão-mor via com uma manta se nevoeiro vinha sobre eles. Era preciso “amainar panos para estes não serem tomados de rajada e se rasgarem”, ou resistindo, para não torcerem a nau contra as vagas até virar. Logo Simão de Miranda gritou ao mestre. “Colocai a vela do traquete a meia driça… rápido!”. O mestre tocou o sino a rebate chamando apressadamente a marinhagem. “Avisem as outras naus…”, gritou Cabral. E logo se seguiram quatro fogos como mandava o regimento. “Vento. Vento”, papagueou o Almirante na gaiola, sempre atento, ate que foi recolhido para os cómodos do capitão-mor e sentiu mais seguro.

E assim andaram o tempo de uma missa até que a cerração os envolveu de tal forma que mal se divisavam já. Cabral temeu que a armada se desunisse, mas juntas também corriam o perigo de chocar. Naquele momento era cada uma por si e na vontade de Deus-Pai – as vagas eram já muito altas, em breve seria difícil ter punho naquelas naus. Até porque o vento de sueste parecia ganhar corpo. As embarcações ondulavam já em árvore seca, com os mastros sem velas. Os matalotes enrolavam os panos, retesavam as cordas, colocavam oleados sobre as entradas do porão, onde se acomodavam os grumetes mais franzinos e os muitos doentes que mal buliam um dedo. A tempestade era lugar de contenda para gente rija. De repente um raio varou o manto espesso de nuvens. O ribombar dos céus a todos assustou e logo as preces se lhes assomaram aos lábios, tementes daquelas forças da natureza que, sabiam eles, só o próprio Deus podia controlar. A chuva já caia copiosamente. Vinha travessada pela força dos ventos e bofeteava a cara dos marinheiros. Sabia-lhes tão salgada quanto a água do mar.

A cada minuto que passava as vagas assanhavam-se mais e mais. De súbito a proa guinou e levantou-se como um corcel espavorido a altear as patas dianteiras. A inclinação foi tanta que muitos homens rolaram pelo convés e foram de chofre contra a amurada, ficando meio aturdidos. Outros com menos sorte caíram às águas. “Homens ao mar…”, gritavam. Mas nada podia ser feito naqueles instantes de mar embrulhado - eram homens perdidos. Muitos marinheiros atavam cordas da cintura aos esteios de madeira, para se precaverem dos balanços da nau e das rabanadas endemoninhadas dos ventos. A água do mar entrava na nau e tudo varria, deixando uma espuma viscosa e suja. A chuva vergastava-lhes o rosto, mal os deixava abrir os olhos, ensopava as roupas, a alma mortificada pelo medo.

Atravessavam já o Cabo das Tormentas e este cuspia-lhes em cima enxurradas de água. Não viam já qualquer esperança naquela boca horrenda do fim do mundo. É que o mar estava cada vez mais atravessado e as ondas abalroavam a nau em espessas chapas de água salgada. Os marinheiros ficavam muitas vezes submersos, sem poderem respirar – instantes que pareciam eternidades, agarrados a tudo, com toda a força que é possível a um homem que se agarra à vida. O sal do mar arranhava-lhes a cara. Muitos vacilavam e iam sugados pelas vagas, num bramido angustiado e impotente perante a força arrasadora da natureza.

O piloto amarrara o leme, mas como um pião nas gadanhas de um gigante, a nau girava sobre si própria como louca. Pedro Álvares Cabral mantinha-se firme no castelo de popa – antes quebrar que torcer, estoicamente enfrentando aquela tormenta desapiedada. Dava ordens, mas já ninguém o ouvia naquele terror. Ele próprio já nada via em seu redor. Estavam encegueirados no meio daquele mar agreste. Só ouvia o rosnar das ondas a invadir a embarcação e os gritos dos homens que arremedavam o mar, chamando-lhe “filho d’uma puta velha”. Mas o mar revolto não os ouvia, ou se os ouvia logo os calava com bofetadas de água e sal. A espuma arrastava-se pelo convés. As velas tinham sido arrancadas das varas, estavam rasgadas, algumas tinham voado na intempérie. Os ovéns e os enfrechates estavam rebentados, as cordas ondeavam como cobras voadoras. Os mastros rangiam e os cestos das gáveas estavam já feitos em estilhas, o mastro de traquete estava alquebrado e ameaçava tombar em cada oscilação da nau. Inclinava de tal modo que, por vezes, parecia que ia desabar o mundo e verter-se para as profundezas do mar. O mastro de mezena quebrou para bombordo e sentiu-se o grito arrastado da madeira ferida.

Nos fundilhos do porão andava tudo em reboliço. As tralhas rebentavam as cordas. Os caixotes afilados voavam com estrondo, tombavam muitas vezes sobre os doentes que repartiam o espaço naquele buraco imundo. Uns ficavam como mortos, outros mortos mesmo, esmagados pelo peso, rasgados pela violência dos trastes arrojados com o baldear da nau. “Onde estais, ó Deus, Acode-nos…!”. Os grumetes choravam em pânicos na gaiola de madeira que era aquele porão imundo que se revirava, que os revirava, que se contra revirava, que se inundava. As bátegas que afrontavam a embarcação arrastavam os oleados, soltavam madeiras. As águas infiltravam-se cada vez em maior jorro. Todo o cavername estava às escuras. Ninguém via nada. Só sentiam o vómito angustiado dos colegas e a água gélida a trepar-lhes pelas pernas acima. Estavam às escuras, tomados de pânico. Era preciso dar à bomba, vazar a água, mas ali só havia gente doente e braços frágeis. Clamavam por socorro mas ninguém vinha a por eles. Talvez só mesmo a morte. Só a morte vinha. Só a morte, em cada voltear de barco, em cada barril que se desprendia sobre alguém. Mas homens, um braço humano de ajuda, não vinha nem um. Todos andavam a tentar sobreviver lá fora, onde davam gritos de raiva ao mar. Já ninguém via ninguém. Gritavam uns pelos outros. Choravam uns pelos outros, porque no meio da chuva um homem pode chorar que ninguém sabe.

O mar abria-se e a nau parecia descer às covas mais recônditas, para depois ser impelida para o cume de uma onda, jorrando águas por todo o lado, jogada no desprezo das águas furibundas, impotente nas vagas. As âncoras estavam soltas, temia o capitão-mor que acabassem presas nalgum rochedo profundo e lhe prendesse a nau até ser engolida pelo mar. Não havia como mandar picar a amarra e soltar os ferros, é que a nau tão depressa decaía às funduras como logo ascendia aos céus, onde os raios disparavam a sua luz como se, pelo tempo de um credo, fosse completamente de dia. Era nesses raios de luz que Cabral olhava o mar em busca das outras naves. Como estariam a suportar tal peleja desigual?

Outro raio. Outro olhar. O capitão-mor viu então como à nau de Bartolomeu Dias se lhe partia o cadaste e a fúria das águas lhe levava o leme, despedaçando a popa, deixando-a como louca ao sabor das vagas. Mais tarde, Cabral divisou nomeio da tormenta como se tomava de água e se entregava ao abismo que havia por dentro do mar. Por ironia do destino, por vingança do mar, rendia-se às profundezas no mesmo local que lhe dera a glória - o cabo tormentoso. Ali mesmo, onde ele provara que o mundo se não acabava plano sobre um precipício. Parecia que o monte negro e altaneiro lhe cobrava agora o agravo de o ter humilhado um dia. E estava a ser atroz na cobrança, mostrando os ventos alísios como arma e ceifando-lhe a própria vida.

Pedro Álvares estava esmagado pela demência da natureza e permaneceu naquela luta durante tempos e tempos que mais que imensos lhe pereceram infindos. Acercavam-se do ponto mais meridional da África, o cabo Agulhas, e de repente, sente também dentro da sua nau o gemido de madeira a quebrar. Amarrado com uma fivela de couro para não ser levado pelo morder das vagas, temeu que um rombo tivesse alquebrado toda a nau, tal fora o estrondo. Um outro raio. Claridade.

Foi quando viu uma parede de água imensa que se erguia à sua frente, revoltosa, suja, medonha, com mais de três vezes a altura do seu mastro maior. E de novo se apagou a luz e mergulhou na escuridão. Aquela boca de mar seria insaciável, pensou. E pela primeira vez sentiu que tudo se acabava ali - iriam ser engolidos. Estremeceu. Foi quando a voz de Bina lhe chegou aos ouvidos por entre o marulhar das águas ensandecidas: “O meu anjo da morte quer o teu coração… Foge e foge deste anjo…”, gritava. “Foge da morte…”. Cabral lembrou a Senhora da Boa Esperança sem ter tempo para rezar e lembrou os olhos doces de Isabel Castro. Ouvia-se o revolutear danado das águas que se iam abater sobre a nau, o rosnar húmido da morte. Agarrou então a cruz que trazia ao peito e entregou-se nas mãos de Cristo. Já nada mais podia fazer. Foi quando a água salgada o amordaçou e lhe tirou o ar que respirava…"


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