O Livro do Império

O Livro do Império

 

Voltar

Excerto

«...Naquela Lisboa cosmopolita muito castelhano se ouvia. Eram bastantes os espanhóis que por ali andavam. Abundavam, eram até demais, comentava-se à boca grande - “Abutres”. Mas tudo tinha uma razão de ser. A Filipe II de Espanha cheirava-lhe a debilidade do reino. Os cofres estavam lisos, sabia-o por sua irmã Catarina, a rainha-viúva, que tudo lhe bufava. As colónias estavam periclitantes com tanto acosso inimigo, sabia-o pelos apóstolos da Companhia de Jesus que eram umas bocas de trapo - os jesuítas e Espanha confundiam-se. E no trono estava um jovem-rei que, no seu desvario por glórias guerreiras, se podia ficar a qualquer momento numa batalha qualquer, mesmo antes de casar ou ter filhos. Se viesse a ter filhos, claro, o que muitos duvidavam.

 

Por toda a Europa se comentava a suposta gonorreia de D. Sebastião e a falta de rijeza do seu membro viril. Má fama. Mas não queria o soberano espanhol deixar nada ao acaso. Salvaguardando ainda uma réstia de tesura por parte d’el-rei, estava disposto a sacrificar a sua primogénita, a Infanta Isabel Clara Eugénia, consentindo num estratégico casamento entre a sua filha e o rei seu primo, assegurando desde logo uma descendência com sangue espanhol. Assim salvaguardava futuros desenlaces. Foi D. Catarina - sua porta-voz dissimulada - quem apresentou a sugestão de noivado [1] dentro da Casa de Áustria. “Impensável!”, barafustou indignado o Cardeal D. Henrique com a força dos sinos de uma catedral. “São primos direitos. E a Infanta é uma criança… não tem ainda seis anos, sequer!”

 

Não restavam dúvidas: havia uma estratégia de avassalamento por parte de Espanha. O avanço de Filipe II era por demais evidente e isso apavorava o Cardeal-infante, que olhando em seu redor via como ele atulhava Lisboa de homens-de-mão, religiosos, mercadores, homens de mar, nobres, tudo… Sabia que Portugal estava despovoado. Sobejavam meia-dúzia de nobres, uns tantos homens de armas, de resto eram mulheres, velhos e crianças. Tudo o mais andava numa fona pelas colónias, a povoar as partes de África, do Brasil, da Ásia. Andava o vigor do reino penhorado em fazer filhos em mulheres alheias.

 

Ainda sem armas, mas com sorrisos e galanteios, iam os abelharucos invadindo o território português, comprando terras, entrando em sociedades mercantis, subsidiando frotas comerciais, fazendo casamentos. E o que acontecia em Lisboa, acontecia em Goa e noutras partes do Portugal imenso de além-mar.

 

Passada a azáfama da sagração natalícia e os festejos populares do Novo Ano, tinha regressado o silêncio, o jejum e a meditação. Entre rezas, D. Henrique deu por si agastado com a visão horrenda de uma pacífica invasão espanhola. Depois dos mouros, vinham eles à cata dos portugueses. Era uma outra guerra, diferente, mas outra guerra. Havia um plano do outro lado da fronteira, tinha a certeza. “Filipe II tem mais sangue português que espanhol, é o chamamento da terra…” dizia ele tanta vez. Depois, acordava durante a noite, em suores frios, cuidado que o prendiam, que o levavam para as masmorras e todo o reino com ele…

 

Por incumbência, estava o Cardeal-inquisidor também a contas com a leitura de um épico poema. E lendo certos versos logo os releu e sublinhou:

 

“…Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe,

Por quem se despovoe o Reino antigo,

Se enfraqueça e se vá deitando a longe;

Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a Fama te exalte e te lisonje…” [2]

 

 

 

Pediu mais candelabros e um manto para as pernas. Solicitou que lhe riscassem todas as obrigações para os dias seguintes, todas as conversas, sermões, confissões e missas. “Deixas criar às portas o inimigo.” Afastou mesmo da sua mesa o último cadastro de bruxas no reino. Poderia examiná-lo mais tarde, assim como à actualização do Índex dos livros a interditar. “Se quiserdes no mundo ser tamanhos, despertai já do sono do ócio ignavo, que o ânimo, de livre, faz escravo…”[3] Precisava de tempo. Tempo. Urgia ler aquela obra com cuidados. Ainda sobre a sua mesa, tinha a missiva da Infanta, sua irmã:

 

 “Este não é apenas mais um. Este é o Livro do Império!”

 

 

 

[1] D. Sebastião chegou a pedir a mão da Infanta D. Isabel em 1576, na cidade castelhana de Guadalupe. Perante a juventude da Infanta, que não tinha ainda 10 anos, o assunto ficou pendente para quando regressasse o rei português da sua campanha militar em África…

 [2] Os Lusíadas, Canto IV, 101

 [3] Os Lusíadas, Canto IX, 92