O Céu do Mar

O Céu do Mar

 

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Excerto

«Mãe, quero ir para o mar…», dizia ele de pele morena e jeito vivaço. «O mar ainda não cabe nos olhos de Deus, por isso deixa-te estar… envelhece!»

O catraio baixa os olhos com tristeza, mas ainda pergunta: «Com que idade o pai foi para o mar?». Carminda mostra-se inquieta e irritada. «Não me lembra. Mas sei a idade que tinha quando o mar foi para dentro dele e não o deixou regressar. Não me peças para partir se não podes assegurar que voltas.» Pedro sentia-se imortal como todos os jovens, por isso garantia à mãe que voltaria, que voltaria sempre. Mas as viúvas são duras de ouvido, não ouvem o lhes lembra a morte - por isso fez orelhas moucas às súplicas do filho.

«O mar é traiçoeiro, não o quero dentro de ti». Pedro ainda argumenta como pode, mas ela não o ouve. As suas palavras eram como o rumorejar das ondas - vêm e vão, depois perdem-se na maré baixa.

«Lembra-te, do mar não vem só peixe. Também chegam tábuas e mortos», diz ela, enquanto mexe a sopa de cação que está ao lume. «Do mar não vem só peixe, do mar não vem só peixe…» repete a mulher que não esquece a cadeira vazia ao seu lado.


****


Pedro chamara a mulher para a bóia dos seus braços. Não sabia se para a salvar, se para ele se salvar com ela. O mastro estava alquebrado com o temporal, o leme desfeito, o cavername da embarcação inundado. Andavam à rola, rodeados de paredões de sal e espuma, como num cárcere de condenados. A água trazia mortos embrulhados nas ondas, madeiras quebradas, restos de velas.

«Do mar não vem só peixe, não vem só peixe…»

E no meio da tormenta há um braço levantado, um grito, um homem em desespero agarrado a umas bóias de cortiça. Pedro reconhece-o de imediato.

«Uma vez, era eu moço ainda, tive de saltar ao mar para ir buscar teu pai aos fundos…», dissera-lhe o ti’Albino. Pedro pediu à mulher que se agarrasse à cana do leme e, sem mais nada dizer, atirou-se às cegas para o rebolo do mar. Entrou na friagem do oceano para pagar a dívida moral herdada de um pai que não conhecera. Sentiu como as águas tomavam conta dele, como o carregavam no seu colo ondulante - queria nadar em direcção ao mestre Albino mas as vagas levavam-no para longe, cada vez para mais longe.

«Tens a mesma loucura nos olhos que o matou, a mesma loucura…», gritou-lhe o homem. «A mesma loucura». Pedro entrou no remoinho das águas e aos poucos, deixou que mar entrasse dentro dele – que entrasse dentro dele.

«Vomita-o!”, gritava Carminda agarrada ao búzio. «Não te deixes levar… vomita-o! Vomita-o!»