"Aproximar o leitor de uma personalidade ímpar"

Polémico e arrojado, Fernão de Magalhães é uma figura fundamen¬tal na História da Humanidade porque foi o primeiro homem a assumir a forma global do nosso planeta. Ele conseguiu tal feito ao circum-navegar a esfera da Terra inicialmente por uma via oriental e depois por uma via ocidental acabando assim por dar-lhe um imenso abraço que uniu o Oriente e o Ocidente. Fernão de Magalhães é por isso um símbolo admirável do início do processo de globalização que vivemos e da força de vontade dos homens em conseguirem alcançar grande desígnios por que anseiam. Tendo chegado às ilhas de Maluco (Molucas) a partir de Malaca e ao serviço do rei de Portugal, Fernão de Magalhães retornou à Ásia e às mesmas longitudes ao achar as Filipinas ao serviço do rei de Castela, depois de ter descoberto o estreito que leva o seu nome. Provou então experimentalmente que a terra era redonda - apesar da noção teórica da sua esfericidade já existir desde tempos antigos – e revelou assim a dimensão aproximada do nosso planeta. Foi também ele o grande impulsionar e estratega da grande expedição que, com muitas aventuras e desventuras, acabou por dar uma volta ao mundo feita de seguida, embora já sob o comando de Juan Sebastián Elcano. Tendo a seu cargo a concepção, organização e comando da mais difícil e longa viagem marítima descobridora da História Fernão de Magalhães conseguiu chegar à Ásia rumando pelo ocidente sendo o primeiro navegador a percorrer todo o vastíssimo mar do Sul, a que chamou oceano Pacífico. Alcançou assim e tão simplesmente o que Cris¬tóvão Colombo apenas sonhara e concluiu, no essencial, o grande ciclo dos Descobrimentos marítimos, iniciado um século antes, em Portugal. Fernão de Magalhães partiu de Sevilha em 1519, faz agora 500 anos… É por isso que, para o lembrarmos, nada melhor do que embarcar na leitura deste tão saboroso como intenso livro que nos revela como a vida deste aventureiro constitui a prova de que a realidade é por vezes mais espantosa do que a fantasia. Nesta páginas os leitores acompanham os extraordinários episódios da vivência de um homem que se imortalizou pelos seus feitos, e por isso todos conhecemos de ouvir dizer ou de ler nos livros mas que verdadeiramente gostaríamos de conhecer mais de perto. Para alcançarmos tal desiderato e aproximar-nos do homem que foi Fernão de Magalhães temos de apreender os dramas que viveu e as realizações que empreendeu tornando-o tão famoso. É o que se pode encontrar neste obra que vai muito para lá das datas, dos luga¬res e das referências históricas pois toda ela é um convite para que o conheçam como homem de carne e osso, com o seu feitio peculiar, com a sua raça em combate, com a sua indomável força de vontade que lhe permitiu che¬gar onde nenhum outro chegara, mas também com as suas frustrações, as suas fragilidades e decepções de vida. Enfim seguindo a vida tal como ela é. Este livro é fruto de uma vasta investigação e de um corpo ficcional que permite humanizar esta figura histórica. Nas suas páginas pretende-se aproximar o leitor de uma personalidade ímpar, para que nelas apreenda as suas ambições e desesperos, as suas forças e pecados, mas sobretudo a visão e arrojo que o catapultaram para uma página assom¬brosa da História da Humanidade. Seguindo toda a informação disponível sobre tão grandiosa viagem e estudando documentos da época foi possível apresentar aqui um vasto con¬junto de peripécias e estratagemas que propiciaram a expedição, um quadro de poderes, intrigas e traições ao longo do seu trajecto, e sobretudo a extrema dureza desta expedição seguida por aventureiros de uma coragem imensa ao enfrentarem tenazmente “mares nunca de antes navegados”. Desta maneira permite-se apreender a experiência arrebatadora deste homem podendo-se estar seguro de que se está a segui-la de perto e quase como se estivesse a recuar ao seu tempo. O que procurava, Fernão de Magalhães e os seus companheiros de vários países europeus todos eles ao serviço de Castela? Poder e muitas riquezas, terras paradisíacas e gente boa para evangelizar. A belíssima ave-do-paraíso que habita nas ilhas de Maluco surge por isso neste romance como símbolo desse anseio de homens que ao fim de desumanos esforços julgavam ter encontrado o paraíso, mas acabaram por enfrentar um inferno de morte. O castigo divino surge assim para as ambições desmedidas ou leva à constatação de que não existem paraí¬sos na Terra e que todos os homens são atreitos ao pecado? Bem pode¬mos pensar quão significativas são por isso as lições de vida que nos deixaram figuras como Fernão de Magalhães, Francisco Serrão, D. Manuel I e Carlos V. Neste romance, a ficção serve apenas para capear a realidade pois nele segue-se o tão belo ensinamento de Eça de Queirós: «sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia». É desta forma que, tal como já o fizera o grande aventureiro e escritor que foi Fernão Mendes Pinto na sua Peregrinação, também João Morgado permite agora a descoberta da biografia de Fernão de Magalhães. Através de uma viagem no tempo e no espaço o leitor pode seguir e encontrar com a segurança, a passo e passo, o que de mais verosímil é possível oferecer sobre esta jornada histórica e quem foi aquele grande capitão. É graças ao génio criativo de João Morgado e à sua enorme capacidade de recrear ambientes numa linguagem que sabe respeitar o tom da época, sem cair em anacronismos, mas também sem ser pesada e de difícil leitura, que nos permite ficar facilmente inseridos num ambiente que nos leva a pensar estar a percorrer pela primeira vez toda a esfera terrestre como se estivesse lá há quinhentos anos atrás. Não é fácil captar aquela que foi uma existência tão forte e dramática como a de Fernão Magalhães mas João Morgado consegue-o plenamente porque tem o talento e o mérito de ter procurado e conseguido a verdade possível cobrindo-a com a sua imaginação tão cuidada e preocupada em dar uma nova vida a uma figura que se elevou à condição de imortal. Depois de longos anos passados a estudar a História dos Descobrimentos Portugueses, que levaram ao início de uma nova era na História da Humanidade, e ao termos incidido a nossa atenção nos últimos tempos na figura de Fernão de Magalhães ansiámos que a história desta personalidade cimeira fosse abordada sob a feição de romance. Foi por isso com uma imensa felicidade que nos deparámos com um autor que foi capaz de materializar uma tão arrojada realização. Assim sendo faltam-nos as palavras para enaltecer a capacidade de João Morgado em ter transformado um sonho numa realidade onde simultaneamente soube transmitir essa grande mensagem que é a de a ambição desmedida poder acabar mal. João Morgado sabe contar com um à vontade surpreendente histórias com aventuras, intrigas, angústias e alegrias que nos comovem e emocionam. Ele mostra-nos os contrastes entre sonhos de grandeza e riqueza em chegar a mundos muito longínquos onde se esperam alcançara grandes riquezas e poder mas terminam em pesadelos e sofrimentos. A prova de que se está perante uma história tão empolgante como épica que não esconde a complexidade das suas múltiplas vertentes e condicionalismos está bem patente, por exemplo, no facto de até nela se deparar com a riqueza do detalhe de uma tão desconhecida como real primeira corrida à volta do mundo que então ocorreu. Esta foi o resultado de D. Manuel I ter ordenado aos irmãos Jorge de Brito e António de Brito que fossem com uma armada portuguesa por uma via oriental às ilhas de Maluco para impedir que lá chegasse a missão de Fernão de Magalhães, enquanto este progredia na sua jornada de descobrimento rumo ao Oriente por ocidente. E as consequências foram dramáticas para a maior parte daqueles que nela participaram na mira de achar o paraíso mas que afinal chegaram ao inferno. Sendo que o facto mais importante desta história é o sucesso alcançado por Fernão de Magalhães com o conhecimento integral da Terra não se escondeu o pano de fundo da morte, a que poucos escaparam. E o romance termina quando o corajoso navegador tombou num combate cuja origem se deixa um suspense para o fim, como deve acontecer em qualquer história tão entusiasmante. Acreditamos, pois, que quem leia esta obra vai ter a fruição invulgar de viver uma boa história – a história de Fernão de Magalhães e de todos aqueles que o rodearam.

José Manuel Garcia IN: Prefácio, 03 de Setembro de 2019

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