Diário dos Infiéis

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Excerto

"As mulheres são um cheiro. É pelo cheiro que as catalogamos no íntimo arquivo dos desejos. «A que cheira uma mulher?», perguntou-me, um dia, a Diana. «Uma rosa cheira a rosa. Um cravo cheira a cravo. Não sei a que cheira uma orquídea. Mas sei que todas as orquídeas cheiram igual», respondi. Já as mulheres, nenhuma repete o cheiro. As que nos refrescam têm cheiro de rio, as que nos enchem têm cheiro de mar. Todas as mulheres têm um cheiro húmido. Como a boca. Como o sexo. Só gostamos de uma mulher quando gostamos do seu cheiro. Quando tudo nos leva a bebê-la, como um chá quente, excitante, aromático. Se não gostarmos do seu cheiro, não conseguimos amá-la, nem na pele nem na alma. Podemos ser amigos, companheiros, nunca amantes. Amar é beber um cheiro. É transportá-lo para dentro de nós. Amamos uma mulher quando cheiramos ao seu cheiro.

(…)

«...DINIZ ... O espelho reflecte o seu corpo transpirado e regado de mim entre as pernas. Palavras brancas entre os seus lábios, a derreter no incêndio que lhe lavra no sangue. Fito o brilho da sua pele como charcos de luz onde há rasgos ainda dos meus dedos. Depois de ser amada no corpo, a mulher é como a terra despenteada nas margens do rio, onde os animais já mataram a sua sede e se recolhem. Como o meu sexo que se remete ao sossego na sombra do meu corpo, a lamber o perfume daquele rio interior em que bebeu. Tenho na boca um travo doce dos beijos redondos dos corpos, e a minha língua está quente como uma moeda ao sol. O sabor do mel transforma agora o meu desejo num animal doméstico que amortece.

Ontem foi uma mulher diferente, como diferente foi a mulher da outra noite, e da outra, e da outra. Embriago-me cada noite no voo de um pássaro diferente. Registo o cristalino das peles de leste, o xisto dos cabelos latinos, as ilhas redondas das nádegas africanas, os fogos azuis dos olhos nórdicos, os frutos maduros dos seios mediterrânicos, os peixes vermelhos das bocas asiáticas. É a simplicidade da matéria que nos arrebata, quando se sorve a luz ou as trevas de cada corpo.

Adormecido entre as minhas pernas, um ramo seco marca já a hora do fim. Terminado o canto da cigarra, a mulher deitada a meu lado, ergue o seu corpo firme, deixa pender os seios como a luz da tarde, recolhe a diminuta lingerie pelo chão num dançar de ancas… Quando se fecha a porta da rua, fecham-se também os meus olhos e adormeço entre o cheiro forte de um perfume que ficou nos lençóis.

(…)

«-... Leonel: Já não desejo a Luísa? Mas o que é o desejo? – pergunto-me tanta vez. Um dia odiei tanto uma mulher que me doía o desejo que tinha por ela – confessou-me o Afonso - Cheguei a odiar-me a mim mesmo por deseja-la tanto. Mesmo assim, desejava-a com todo o ódio que lhe tinha. Um ódio tão profundo, tão intenso, que só chega onde chega uma grande amor. Um amor tão profundo, tão intenso, que me poderia levar ao mais intenso e profundo dos ódios, mas nunca à indiferença. Acredita, o desejo é apenas um incontido impulso animal, elementar como o cheiro de um corpo, primário, louco… confundido com o amor quando revestido de um pouco de afeição, de ternura, de respeito. Mas o desejo vive por si só. Podes desejar uma mulher mesmo que saibas que é o diabo. Ou talvez por ser o diabo, instintivamente, a desejes ainda mais...

(...)

Que mulher? Afonso ignorou a pergunta. Apenas me advertiu - nunca confundas amor com desejo, pois qualquer mulher troca flores e poemas por orgasmos múltiplos. O amor é apenas um estado febril mais ou menos transitório, mas o desejo existe, resiste, é bravio, apega-se ao corpo. É inacreditável até onde alguém pode chegar movido pelo desejo de possuir alguém. Pode chegar a ser doentio, como uma droga que te vicia e te bloqueia a mente. Pode destruir-te… matar-te! – concluiu.

Quem lê tantos romances de amor não pode ser tão descrente nesse mesmo amor, respondi, tentando contestar a amargura das suas palavras. Não te iludas – retorquiu Afonso com um sorriso – São apenas estúpidos livros que falam da melhor das ficções: o amor. Apenas gosto de ler romances de ficção, nada mais que isso…»

(…)

«... Lembro-me que Amélia escreveu um poema lindo. De letra forte. Bem carregada. Como ela, que sempre tinha sobressaído entre as outras, reparei na sua letra ‘S’. Eu escrevia ainda os ésses como minha mãe me ensinara. Uma perninha, depois uma cabeça redondinha e o resto do corpo arqueado, como as costas de um gato sentado. Mas a letra dela era já emancipada. Escrevia os ésses como uma cascavel, uma linha altiva, com duas curvas, mas de cabeça levantada. Senti-me na minha condição de menino – que era - na carteira inclinada da primária, com o tinteiro de porcelana e um rego escavado na madeira para segurar os lápis. Enquanto ela, apesar de franzina, parecia já não caber naqueles bancos de madeira. Parecia ser já madura, com letras de gente grande.

Pela primeira vez na vida senti não estar à altura de alguém. O magnetismo do seu temperamento forte deixava-me intimidado. Sentia-me um menino frágil. Mas depois pensei, que diabo, nem tudo estava já perdido. Eu também podia evoluir. Como os vendavais começam em simples brisas, também podia começar com coisas simples. Podia começar por mudar a grafia. Por exemplo, escrevendo os ésses como os da Amélia. Então, durante dias espantei o meu ‘S’ de gato sentado e amestrei a mão para o desenho da sua serpente cascavel. Uma e outra vez. E a partir dai, sempre que escrevia um ‘S’, sorria. Era como um soneto. Um ‘S’ de amor.

Entretanto acabou a primária. Vieram as férias grandes e ela partiu para outra escola. Via-a de tempos em tempos. Estudava os seus horários e forçava encontros, ainda que dando um ar de casualidade. Mas estes eram cada vez mais breves e espaçados. A nossa história tinha cada vez menos verbo, cada vez mais reticências e espaços em branco. Um dia, não sei quando, sem dar por isso, teve um ponto final.

Restaram imagens aprazíveis de uma infância feliz e de um coração que se tornou mais sensível e aprendeu uma outra forma de amor. E restaram até hoje, os ésses de cascavel da Amélia, que todos os dias me saem dos dedos, agora já sem esforço, de forma rotineira e casual. De vez em quando, muito de vez em quando, ainda me rasgam um sorriso nos lábios.

Passados uns tempos voltei a rever as velhas carteiras de madeira, mas com outras caras. Agora eu era o professor que ensinava a música da tabuada e o bê-á-bá.

Quando tive de lhes ensinar as primeiras letras, comecei pelo a e i o u mas, depois, vieram as consoantes e, já lá para o final, a letra ‘S’. Na ardósia preta do quadro, desenhei com o giz uma perninha, depois uma cabeça redondinha e o resto do corpo arqueado, como as costas de um gato sentado. Fiquei a olhar para o quadro. Deixei-me rir. Já não escrevia assim há tanto tempo.

Apaguei o que escrevera e disse aos miúdos, vou ensinar-vos um ‘S’ mais simples. Querem ver? É assim… um risco, com duas curvas, como se fosse uma serpente, uma cascavel de cabeça levantada. Simples, não é?

Durante estes anos eduquei centenas de crianças. A ardósia deu lugar ao quadro branco e o giz reformou-se perante o colorido dos marcadores. Agora, andam pela cidade várias gerações que escrevem um ‘S’ de serpente cascavel.

A minha Alice, com quem casei sei lá há quanto tempo, não sabe desta história secreta que resguardei na minha intimidade. Trabalha no registo civil sem saber que cada ‘S’ serpenteado que as pessoas assinam no bilhete de identidade, é o perpetuar de um amor longínquo, que eu não vivi, mas que nunca esqueci. Uma pequena infidelidade da memória.

Por seu lado, a Amélia continua linda. É funcionária na estação de correios, onde diariamente, centenas de pessoas preenchem papéis e assinam o seu nome. À sua frente passam milhares de letras. Entre elas, milhentas serpentes cascavel, sem que ela saiba que são serpentes, sem que saiba que são as suas serpentes, sem que saiba que são sonetos, sem que saiba que é um ‘S’ de amor, a marca digital… do meu primeiro amor!...»

(…)

«Diana: Não o esqueço. Devo ao Diniz ter-me resgatado do lugar onde vivem os sem-alma, no tempo em que eu só tinha corpo e era um corpo perdido como a alma. Só que um corpo é um corpo, quando se perde, perdemo-nos com ele. Apesar do nojo, somos obrigados a pernoitar e a acordar nesse mesmo corpo. Podemos perder tudo, abdicar de tudo, excepto de nós próprios. Como uma maldição. Procuro não me recordar desses tempos em que vivia de contra-vontade no meu corpo, prisioneira da minha carne e das memórias que a habitavam. O Diniz apaixonou-se pela minha força, diz ele. Porque me viu derrubada, a mastigar o pó, mas sempre em silêncio, sem lágrimas, como se estivesse imune à dor. Por isso me deu a mão, me levou para casa, para a ternura sua cama, sem me fazer perguntas. Sem eu dar respostas. Um silêncio enganador que apenas escondia todo o meu pânico… Conheci o Diniz no hospital, onde entrei frágil como uma sombra no entardecer. Sabia que estava num estado grave, mas também soube que ia sobreviver quando o olhei nos olhos. De branco, olhei para o médico e vi nele um anjo. Talvez fosse um delírio provocado pela febre. Talvez fosse apenas um desejo de fé. Talvez um sonho de olhos abertos. Sei que vi nele um anjo, ponto final. Acreditei nele como um anjo e sobrevivi. Mais tarde, chamei por ele quando senti que já raiava a demência e ele respondeu ao meu apelo. Na primeira noite que dormi na sua cama não fizemos sexo. Apenas permanecemos abraçados. Mas nessa noite foi assaltado por violentos pesadelos. Tive de o acalmar, nessa noite e nas noites que se seguiram. Tive de cuidar da sua debilidade como ele cuidava da minha. Muito cuida quem precisa de cuidados, pensei. E assim permanecemos até hoje. Fortes na nossa fragilidade. Cuidando-nos".


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