Um livro de filosofia como paraquedas.

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Photo @eleonora_brusco
Gazeta Lusófona, Agosto.2022, Suíça. 

 

«O que faz um manual escolar entre as minhas obras predilectas? Simples. Foi um livro que aos 15 anos me marcou, me abriu a mente, me mostrou uma outra forma de olhar o mundo. Diz um conhecido pensamento que: “A mente é como um paraquedas, só funciona depois de aberta”.»

 

 

Perguntam: qual foi o livro da sua vida? As pessoas respondem sempre com grandes clássicos da literatura universal, a ‘Bíblia’, ‘Os Lusíadas’, ‘Guerra e Paz’, ‘Moby Dick’, ‘A Divina Comédia’ ou um qualquer romance de Fátima Lopes. Também já dei por mim a responder ‘Os Maias’ e coisas parecidas. Acredito que estes livros podem ter um impacto tremendo em quem os lê, que podem mudar pensamentos, linhas de vida.

Um dos escritor que mais me influenciou foi Edgar Rice Burroughs. Talvez não saibam que é, mas foi o criador do “Tarzan” – uma longa colecção de livro entusiasmantes que ainda guardo na minha estante. Muitos li-os na biblioteca municipal da Covilhã. Enquanto outros jogavam á bola, foram tardes e tardes de leitura, que me alimentaram o imaginário e a força da escrita. Os livros dependem também da altura em que os lemos.

Por razões evidentes, ‘Memórias de uma Cantora Alemã’ de W. Schroeder-Deurient, teve em mim um impacto na juventude, que hoje não teria. Outros influenciaram a minha forma de escrever, como é o caso de Aquilino Ribeiro, que me encheu a cabeça de palavras. Quem me libertou dos clássicos, foi António Lobo Antunes. Marcou-me profundamente, da mesma forma que algumas “grandes vozes da nova literatura portuguesa”, não me beliscaram em nada e deixei os seus livros por acabar de ler. ‘A Insustentável Leveza do Ser’ de Kundera marcou a escrita do meu primeiro romance – e, hoje, não encontro esse livro nas minhas prateleiras. O que me recorda que não se devem emprestar livros.

Por falar nisso, observando as prateleiras lá de casa, dei com a lombada meio rota (sinal de uso) de um livro do meu 10º Ano – “Temas de Filosofia, de Maria Luísa Guerra. O que faz um manual escolar entre as minhas obras predilectas?

Simples. Foi um livro que aos 15 anos me marcou, me abriu a mente, me mostrou uma outra forma de olhar o mundo. Diz um conhecido pensamento que: “A mente é como um paraquedas, só funciona depois de aberta”. A frase é atribuída a Thomas Dewar, a Albert Einstein, a Matheus Rocha (seja ele quem for, não faço ideia), a Frank Zappa, a Clarice Linspector, enfim… o importante é que regista uma grande verdade.

 

Um livro aberto, uma mente que não voltou a ser a mesma. “Qual foi o livro da sua vida?” – que posso eu responder? ‘A Odisseia’ de Homero? ‘Dom Quixote de la Mancha’, de Cervantes? Ou um “simples” livro de temas de filosofia do 10º ano?…

 

Este livro, foi ficando na minha biblioteca porque me abriu os horizontes para Sartre, Kant, Nietzsche… um simples manual escolar, mas que foi o despoletar de interrogações sobre a condição humana, o papel de Deus, a relevância da arte… Depois deste livro, com imensos excertos de verdadeiros clássicos, nunca mais voltei a ser o mesmo. Que obra se pode orgulhar de mudar tanto uma pessoa? Um livro “simples” escolar.

Photo @eleonora_brusco

Também foi interessante, ver que folhas marquei: “Os valores éticos no humanismo contemporâneo”, “As relações do homem com a divindade”, entre outras…

As frases que sublinhei: “O homem é uma corda estendida entre a besta e o super-homem, uma corda sobre o abismo” (Nietzsche). Imaginem um jovem de 15 anos, de formação católica, a interrogar-se se a existência de Deus era uma verdade evidente, demonstrada, indiscutível? E a ler que “A fé é diferente da prova” (Pascal) e que “um Deus Provado não é Deus; seria apenas uma coisa no mundo” (Karl Jasper) e que seria “uma blasfémia” (Maeterlinck) supor que pudesse entrar no nosso entendimento. Por outro lado, Sartre a dizer que “estamos sós”, e o homem está condenado a ser livre. “Condenado porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer…” Existir é decidir – sublinhei. Textos que falavam de que recusando Deus, o homem sempre procurava Deus, mesmo que Nietzsche grite em alemão: Gott ist tot – “Deus está morto” e nos desafie:”Sê tu próprio!” E a justiça? E o Estado? E o belo? E a perturbação da arte? …

Um livro aberto, uma mente que não voltou a ser a mesma. “Qual foi o livro da sua vida?” – que posso eu responder? ‘A Odisseia’ de Homero? ‘Dom Quixote de la Mancha’, de Cervantes? Ou um “simples” livro de temas de filosofia do 10º ano?…

João Morgado