A COSTUREIRA DE SONHOS – Dedicado a minha mãe.

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Maria José Inácio
Conto original (Texto completo) _____________

Minha mãe era costureira. Costurava roupa na máquina e sonhos na cabeça. Porque os sonhos, caso não saibam, também precisam de ser desenhados a giz e moldados com aquela matéria de que são feitos os sonhos – que é a mesma de que é feita a vida. E é preciso chulear as diferentes partes do sonho para não esgarçarem e só depois se vão cosendo com linha fina mas resistente, até ganharem a sua forma acabada. É preciso ser uma costureira muito boa para que os sonhos nos assentem que nem uma luva. Minha mãe foi sempre uma excelente costureira, sei do que falo porque já vesti muitos dos sonhos que ela fez para mim.

Quando a noite chegava, ela abria o divã na sala, preparava-me a cama e eu adormecia a vê-la trabalhar, ninado sempre pelo seu sorriso e pela máquina de costura. Aquela máquina era a minha canção de embalar, porque a melodia é apenas a forma como arrumamos os sons na nossa cabeça – essa é a essência da música. E podia lá haver harmonia mais bela do que a minha mãe a costurar sonhos com sorrisos?

Ela pedalava a noite inteira, curvada sobre a máquina, sobre a vida, curvada sobre o peso de tudo o que pesa numa pessoa. E mesmo quando o sol lhe morria na janela, não lhe morria o dia. Continuava a trabalhar serão adentro, acasalando panos que se transformavam em calças, peças de algodão de onde nasciam camisas…

 

– Mãe, ainda estás a costurar sonhos? – perguntava eu quando acordava a meio da noite e a via ainda de agulha e dedal, alinhavando um tecido cor-de-rosa.

– Sim, meu filho, neste vestido de chita, vai o sonho de uma menina arranjar namorado no próximo baile…!

 

E eu sorria e voltava a adormecer, orgulhoso da minha mãe, porque das suas mãos saía a felicidade das pessoas. Ela trabalhava todas as noites e eu agora entendia porquê, é que era de muita responsabilidade fazer as pessoas felizes. E lá seguia ela com os seus afazeres, seroando, sempre a pedalar na máquina horas e horas, naquela máquina que me embalava com o seu laborar ordeiro, com a sua agulha incansável e um sem fim de linha que, tal como a noite, parecia nunca mais acabar.

Quando as pessoas vinham provar as roupas, sorriam, sorriam muito. A menina do vestido de chita até rodopiou em frente ao espelho, como que ensaiando a dança. E era tal a satisfação, tamanho o seu sorriso, que a cada volta me parecia mais bonita, sempre mais bonita. Acreditem, até me apeteceu dançar com ela. Sempre a pensar que, se eu fosse mais velho, era eu quem lhe pedia namoro, porque a minha mãe trabalhara toda a noite para lhe dar o sonho de ser princesa. E eu, juro, olhava para ela como se fosse uma princesa de carne e osso, porque minha a mãe sempre soube bem-fazer sonhos por medida.

E todos os dias vinham pessoas tristes mandar fazer sonhos. Mas a minha mãe sempre foi muito inteligente. Sabia que os sonhos ilimitados eram com Deus, ela só fazia sonhos com princípio, meio e fim. Por isso passava-lhes sempre a fita métrica pelo corpo. A fita era amarela de um lado e azul do outro, mas dos dois lados media o mesmo. Dizia-me ela que também os sonhos tinham sempre a mesma medida, mesmo quando os virávamos do avesso (como ela fazias com as presilhas das calças). E media-lhes então o peito, a barriga, as ancas, o tamanho das pernas, a distância que lhes ia do pescoço aos pés… apontava tudo em papel manteiga, com um lápis grosso, números redondos para não haver engano.

Por vezes as pessoas eram pequenas por fora, mas tinham grandes sonhos dentro delas, mas minha mãe sabia ver a diferença e nunca se enganava, tirava sempre as medidas certas.

Debruçava-se sobre a mesa, estendia os moldes sobre os tecidos, desenhava as peças com um giz azul e depois cortava-as com uma tesoura grossa, muito grossa, mas que já se moldara aos dedos da minha mãe. E tudo começava de novo. Por vezes deixava que eu chuleasse umas peças, cosesse uns botões – colasse uma ou duas penas nas asas do sonho -, de resto, tudo era com ela, incansável, noite fora, com a braseira acesa a enganar o frio do Inverno, a trabalhar, sempre a trabalhar.

 

 – Mãe, ainda estás a costurar sonhos? – perguntava eu quando acordava noite dentro e a via ainda de agulha e dedal, alinhavando um tecido branco.

– Sim, meu filho, neste vestido vai o sonho de um casamento feliz!

 

E eu pensava, como seria triste este mundo se ela não cuidasse das pessoas, se não estivesse a zelar por elas como um anjo, vestindo-as de sonhos. E era neste pensar que eu adormecia vaidoso da mãe que tinha. E era quando a noite ia já longa, que o padeiro lhe vinha bater na janela, que o forno era ali mesmo em frente, à distância de um grito. Minha mãe derretia manteiga no pão quente, acabadinho de sair do forno, o seu único luxo, aquecia o leite, e só depois deste pequeno-almoço é que adormecia por umas horas. Poucas, que a vida cedo bate à porta de quem vive do trabalho.

“D. Zézinha” – como é conhecida!

E os sonhos da minha mãe, como seriam? – pensava eu tanta vez. Será que de tanto cuidar dos sonhos dos outros acabava por esquecer os seus?

E ela olhava para mim e sonhava-me, costurava-me com os olhos e sorria. Depois fazia-me uns calções para alimentar os meus sonhos de ser jogador da bola – eu tinha para comigo que um dia haveria de ser guarda-redes.

Por certo que na cabeça da minha mãe havia outros devaneios, mas nunca falava deles. “Os sonhos não se dizem, desenham-se, costuram-se, vestem-se… quando se trata de sonhos, falar é perder tempo, é gastar linha sem dar ponto nem nó!”. Por isso as suas palavras eram alinhavos silenciosos. Os seus sonhos eram feitos de realidades construídas ou em construção. E a realidade era simples – minha mãe sobrevivia dos sonhos dos outros para que os seus pudessem sobreviver. Esta era a verdade. A realidade é a matéria de que se fazem os sonhos, pois os sonhos fazem-se de vida.

 

– Mãe, ainda estás a costurar sonhos? – perguntava eu quando acordava a meio da noite e a via ainda de agulha e dedal, alinhavando um tecido azul.

– Sim, meu filho, neste vestido largo, vai o sonho de ser mãe, o sonho d’um menino por nascer…!

 

E eu ficava tão feliz que me custava a adormecer. E de repente, dava por mim a pensar que era estranho toda a gente dizer, “dorme bem e tem bons sonhos”. Esta frase para mim não fazia sentido, porque a minha mãe era a prova mais que provada de que os sonhos não nascem a dormir. Ela estava acordada a noite inteira a costura-los. E eram acordadas que as pessoas os vinham vestir e sorriam, e eram acordadas que eram felizes, quando arranjavam namorados no baile, quando casavam de branco, quando grávidas se vestiam de azul, quando tinha filhos…

E não julguem que sonhar é fácil, digo-vos eu que não, não é mesmo nada fácil. Sei do que falo, porque a minha mãe sempre costurou sonhos à minha frente, e sei como lhe doíam as costas, como lhe tremiam as mãos, como lhe picavam os olhos, como lhe cresciam as rugas. Eu vi como ela envelhecia a fazer os outros felizes, porque cada sonho a consumia um pouco. Por vezes eu fingia adormecer, mas continuava acordado. E via como ela rezava, como ela chorava, como ela sofria.

Com a neta, Carolina Morgado.

Eu não dizia nada. Sabem porquê? Por respeito, porque ela não gostaria que eu a visse chorar, porque esse era o seu segredo – os sonhos eram feitos de muita fé e de muitos sacrifícios. E foi assim que ela me costurou os calções para a escola, as calças para o liceu, o traje para a universidade, o fato do casamento… porque ela sempre esteve comigo, lado a lado, sempre a costurar todos os sonhos da minha vida inteira, a ensinar-me a ter fantasias e a alimentar-me com raízes no chão.

Minha mãe não gastava pano nem linha no falar, mas ensinava-me da melhor forma que ela tinha para ensinar alguém, com o seu exemplo de cada dia e de cada noite. Talvez por isso, hoje, já adulto, eu goste de trabalhar noite dentro para costurar os meus sonhos… talvez porque aquelas noites eram mágicas, faziam florir sonhos das suas mãos de fada e brotar pão quente da janela…

 

– Mãe, ainda estás a costurar sonhos? – pergunto eu quando acordo a meio da noite e a revejo já sem agulha nem dedal…

– Sim, meu filho, ainda estou… a sonhar-te!

 

Na minha imperfeição, talvez eu nem sempre seja como minha mãe me sonha, mas ela não se importa, continua a sonhar-me com sorrisos, porque sonhar um filho é uma história interminável, não acaba nunca. E eu, vivo também o sonho de ser seu filho. Um sonho que é meu, só meu…e também foi ela que o desenhou, o moldou, foi ela que costurou!

E é assim que somos felizes… a sonharmo-nos um ao outro!

 

Original publicado em 23.02.2022

 

João Morgado com sua mãe, Maria José Inácio

 

“Minha mãe… quando saí dela, sem dela nunca ter saído, ela entrou em mim para nunca mais sair.”

| João Morgado, 2011 |

http://www.joaomorgado.net/blog/2021/05/02/mae/