Entrevista: MACAU EM DEZ COMPASSOS (Parágrafo)

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João Morgado, 2017
Entrevista ao jornal Ponto Final, suplemento cultural "Parágrafo" _ (29.10.21 ) ________ 

Vencedor do Prémio Nacional do Conto Manuel da Fonseca, o mais recente livro de João Morgado reúne dez ficções breves que têm Macau como cenário. Contos de Macau (editado em Portugal pela Colibri) não esquece as ruas do velho bazar, as corridas de carro ou os casinos, mas também por lá andam Camões e Pessanha, numa polifonia que percorre diferentes tempos do território, sempre em modo ficcional.

Sara figueiredo Costa

 

Este livro nasceu da sua passagem por Macau, em 2017, a propósito do Festival Literário Rota das Letras.

Sim, foi a primeira e a única vez que estive em Macau, e esta é a parte triste, porque gostava de ter voltado… Fui directamente para o Festival Literário e estive aí uns cinco ou seis dias, o que ainda deu para viajar um pouco, conhecer Macau, visitar Hong Kong.

João Morgado, 2017, durante o FESTIVAL LITERÁRIO DE MACAU

Que elementos captaram a sua atenção no território, fazendo nascer estas ficções? Na altura, tinham-me pedido para escrever um conto para uma edição feita pelo Festival Literário, e esse foi o início deste livro. Quando acabei o conto, fiquei indeciso sobre se o enviaria ou se escrevia outro, e acabei por escrever dois ou três, depois entusiasmei-me e escrevi mais um. Entretanto, comecei a pensar na hipótese de um livro e aí escrevi mais alguns. Acabou por ficar um livro de dez contos sobre a temática de Macau, obviamente inspirados por essa viagem em que passei pelo território, por essa mistura de culturas, pelos vestígios da presença portuguesa e todo aquele espaço oriental.

Talvez quem esteja no território já não tenha essa noção dos contrastes, mas quando a gente lá chega, esse contraste é muito visível. Depois, temos sempre aquele imaginário da cultura oriental, um certo fascínio, mas quando cheguei, o que me fascinou foi a mistura, o haver ali uma comunidade portuguesa com uma história. E resolvi escrever sobre isso, porque era uma temática que me interessava, e procurei escrever sobre áreas muito específicas de Macau, como o jogo, a presença de Camões, as corridas, ou seja, temas muito fortes de Macau, tentando sempre explorar aquela mistura entre a cultura portuguesa e a oriental.

De certo modo, a Macau que surge nestes contos, ainda que com cronologias diferentes, parece já não existir. É assim?

Sim, já não existe. A viagem a Macau foi o estímulo, mas todo o livro é uma ficção sobre Macau, não é o território de hoje, mas uma tentativa de apanhar fragmentos culturais de Macau, ficcioná-los… São várias imagens de Macau na minha cabeça, mas não é a Macau de hoje. Algumas imagens são mais próximas do que foi Macau há uns tempos, outras são mais ficção. Digamos que Macau é apenas a linha condutora para dez ficções.

E reconheceu, no território que visitou, essas várias camadas do passado, ou esse olhar para diferentes tempos foi feito posteriormente, na altura da escrita do livro?

A nossa percepção das coisas é uma colecção de estímulos, há coisas que nós vemos, que lemos, que imaginamos. Aliás, este livro é muito diferente dos livros que habitualmente escrevo. Trabalho muito o romance histórico e aí tenho aquela facilidade de me deslocar no tempo, mas há um trabalho rigoroso de investigação de datas, de lugares, de factos, e aqui, neste livro, fiquei com alguma liberdade criativa e ficcional. Embora haja aqui muitas referências históricas de Macau que obviamente estão estudadas e verificadas, houve uma liberdade de escrita muito grande, ou seja, este livro foi também para mim uma saída do espartilho em que costumo estar a trabalhar, dando-me muita liberdade. Nos romances históricos, estou mais preso às personagens, aos factos, às datas, e tenho de seguir quase um guião pré-determinado, mas nestes contos, que escrevi durante a pandemia, num período em que estive mais confinado, em casa, acabei por ter um momento de evasão. Portanto, aproveitei de Macau aquilo que vi, que conheci, que experimentei, mas também o que li, coisas que me contaram, e isso resultou nestes dez contos de pura ficção.

João Morgado na ilha de Lantau, em visita ao Tian Tan Buddha (2017). (Foto: Marta Pereira)

Em alguns destes contos, mas mais particularmente em «O Curandeiro dos Pés Descalços», reflecte-se um pouco sobre as diferenças culturais entre portugueses e chineses, se podemos generalizar, e talvez sobre uma certa incompreensão que essas diferenças às vezes instalam na comunicação entre as pessoas. Este tema já o interessava previamente à sua ida a Macau ou surgiu como tema literário na sua viagem?

Esse foi o último conto que escrevi e resultou de um episódio pessoal… Tive um problema de saúde e resolvi fazer acupuntura. Com o médico que me tratou, formado em medicina chinesa, ainda que sendo português, falei muito sobre esta questão da medicina tradicional chinesa, de como era diferente do que conhecemos, e foi dessa conversa que nasceu esta história. É um conto que procura reflectir sobre as diferenças entre a cultura ocidental e a oriental e sobre como elas deverão ter estado em choque durante muitos anos em Macau.

Sem querer quebrar a sacrossanta regra teórica que não permite confundir autor e narrador, não resisto a perguntar se teve as mesmas inquietações e as mesmas dúvidas que o protagonista deste conto relativamente às práticas da medicina chinesa ou foi mais rápido a aceitar o tratamento?

Sou uma pessoa de mente aberta, mas na verdade nunca tinha feito acupuntura. Foi uma coisa que surgiu em conversa e resolvi experimentar, mas fui sem problema algum. Já vi tanta coisa no mundo que acho que temos de estar de mente aberta para tudo, por isso não tive problemas em aceitar este tratamento, ao contrário do personagem do meu conto. Mas acredito que na altura em que esta história se passa, algures pelos anos 60, sobretudo para um médico formado na Universidade de Coimbra, como o personagem, isso tenha sido muito complicado. Aliás, no conto, refiro que o médico, que aqui é paciente, via aquilo como uma ida à bruxa ou ao curandeiro, e penso que esse tipo de choque terá existido. Na minha cabeça, é ficcionado, mas suponho que corresponderá a muito do que terá acontecido naquela época em situações semelhantes. E que talvez aconteça ainda hoje, porque ainda há muita gente renitente em relação à acupuntura

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Quando estive em Macau, uma jornalista perguntou-me o que levava do território e eu disse que não fazia ideia, mas que quando estivesse a escrever, as coisas iriam surgir. A inspiração não é mais do que ir buscar o que temos dentro e trabalhá-lo…

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Camilo Pessanha é personagem de um destes contos, «Pe San Ié, o poeta e a concubina». Apesar da curta produção poética deste autor, Pessanha continua a ser uma figura a que não se pode fugir quando se escreve sobre Macau? Continua a ter essa dimensão?

Camilo Pessanha realmente só deixou um livro, mas no caso dele bastou para marcar a literatura. Embora seja uma figura reputada na literatura portuguesa, não é demasiado conhecido, pelo menos em Portugal, onde já se lê pouco. Não falo dos leitores mais literatos, mas para o grande público, creio que é um poeta um pouco esquecido. Em Macau será muito mais recordado, talvez por haver essa ligação muito forte com o território. Achei que era uma oportunidade de voltar a puxar a figura de Pessanha para o grande público, pegando nas suas contradições, na sua vida, na maneira um pouco marginal que assumia. Foi um conto que me deu muito prazer em escrever, porque me obrigou a voltar à obra e à biografia. E como é um expoente do simbolismo, até procurei ir um pouco ao estilo dele, apanhar algumas marcas no modo de escrever, com a repetição das palavras e outras referências. Foi muito interessante para mim revisitar este poeta e espero que seja interessante para os leitores voltar a recordá-lo e, quem sabe, voltar a ler os seus poemas.

Há uma vontade clara neste conto de mostrar essas contradições que referiu em relação a Pessanha, essa oposição entre o poeta considerado e o cidadão visto como desregrado, pouco conforme às normas sociais. Partiu dessa vontade para escrever o conto?

Sim, creio que se Pessanha fosse um poeta certinho, talvez não tivesse havido conto. Talvez nem tivesse havido poemas, pelo que não valeria muito a pena estar a escrever um conto sobre ele… É este sair da linha que o torna uma figura interessante. Pegar nesses desmandos de Pessanha torna-o uma figura interessante enquanto personagem, que permite falar dos vícios, das paixões, do modo como era visto como chocante numa sociedade conservadora, até pelas posições e cargos que ocupou, e talvez isso até o torne mais percebido pelos leitores. Foi isso que procurei reflectir neste conto. Andei muito tempo a escrevê-lo e a reescrevê-lo, a ler mais coisas, talvez tenha sido o conto que me fez andar mais tempo de volta dele.

João Morgado no Jardim de Luís de Camões (Macau). Este busto de Camões, data de 1866, é da autoria do escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro. No pedestal estão gravadas as estâncias I, II e III do Canto I dos «Lusíadas» e na parte de trás a sua tradução em chinês. (Foto: Marta Pereira)

Para além de Pessanha, temos Luís de Camões, que já era personagem de destaque no seu romance O Livro do Império e que agora volta a ser convocado no conto «O poeta barbirruivo na ponta da blusa». Camões continua a ser fonte inesgotável de histórias e possibilidades ficcionais, independentemente do que possa ainda vir a descobrir-se realmente sobre a sua biografia?

Deu-me muito trabalho escrever O Livro do Império, foi um romance muito trabalhado que me obrigou a ler Os Lusíadas de novo… já ninguém lê Os Lusíadas, hoje em dia, as pessoas só lêem aquilo que se escreve sobre a obra. Há muitas coisas sobre Camões que já não são estudadas, são repetidas até à exaustão. Afirmaram-se e perpetuaram-se muitas coisas sobre o autor, andamos sempre a dizer o mesmo sobre Camões, quando na verdade ainda há tanto para dizer. No romance, não fui buscar aquelas imagens sobre o Camões espadachim e namoradeiro, até porque considero que são um pouco falsas, mas sim o Camões que já veio doente da Índia para Portugal, a escrever e a reescrever Os Lusíadas. Andei vários meses com o Camões, já quase o tratava por tu, mas voltamos à conversa inicial, enquanto nos romances históricos tenho de estar com uma postura mais focada na realidade, sobre as datas, no conto tive essa liberdade ficcional, pude ficcionar sobre o autor, imaginá-lo em Macau, com o seu amor, e imaginar um fim completamente diferente daquele que corresponderá à verdade histórica.

Em Vera Cruz e em As Índias debruça-se sobre facetas menos conhecidas de Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama, respectivamente. A construção do império colonial português, que se estende por vários séculos, deixando uma série de marcas a tantos níveis, continua a ser um tema com histórias por descobrir e para criar?

Sim, estou aqui a lembrar-me de uma citação… Vou buscar o livro, que é mais fácil. É de George Orwell e diz: «O passado é a coisa mais imprevisível do mundo. Não pára de se transformar.» É um bocado isto, ou seja, quando olhamos para o passado, se mudarmos as perguntas à História, ela também nos muda as respostas. O que tenho procurado é partir de figuras da História portuguesa e ir buscar o lado não oficial. Nós, como os espanhóis, os ingleses, os franceses, todos temos uma história oficial, todos construímos a história dos nossos heróis, que são sempre impolutos, moralmente inatacáveis. O queeu procuro é ir aos personagens históricos e tentar o outro lado, mostrar que Cabral nem sequer se chamava Cabral, e não era um navegador. Ou dizer que toda a gente refere que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, mas provavelmente não foi ele, porque Bartolomeu Dias já tinha feito todo o percurso até ao Índico, e no Índico já havia outros navegadores, portanto, talvez tenha sido apenas o primeiro a completar o caminho. E todos falamos na viagem de Vasco da Gama à Índia, mas na verdade ele foi lá três vezes, e isso não é muito conhecido, talvez porque a segunda e a terceira viagens não convém à ideia de uma História limpa e imaculada. É isso que eu procuro, o que não vem na história oficial que estudamos na escola, e não estou a inventar a pólvora, porque tudo aquilo de que falo está documentado e é conhecido dos historiadores, o que talvez não esteja é apresentado para o grande público e é isso que tento fazer, mostrar que os nossos heróis são pessoas como toda a gente, com defeitos, com problemas, vamos entendê-los melhor.

João Morgado em Santiago do Cacém
João Morgado com familiares de Manuel da Fonseca e Jaime Cáceres, Vereador da Cultura de Santiago do Cacém.

Este livro ganhou o Prémio Nacional do Conto Manuel da Fonseca. Não é a primeira vez que ganha um prémio, mas este teve um significado particular?

Escrevo e publico há quase onze anos e ao longo desse tempo recebi nove prémios. Curiosamente, são prémios a que concorro com pseudónimo… Curiosamente, quando os meus livros vão a concursos nacionais com o meu nome na capa, aí nunca ganho prémio nenhum! Portanto, o mau não deve ser a minha escrita, deve ser o meu nome. Este foi um prémio muito interessante para mim, porque conhecia muito a escrita de Manuel da Fonseca, era um dos autores que eu lia quando era mais novo, o que me deu um prazer especial. Foi muito bom estar em Santiago do Cacém para receber o prémio, conviver com familiares de Manuel da Fonseca, conversar sobre a obra. E num mercado que é tão concorrencial e em que se publica tanto, um prémio dá-nos algum destaque, o que pode ser interessante para a promoção da obra e do seu autor.

Pensa regressar a Macau, talvez para escrever mais sobre o território?

Havia um convite para ir à Indonésia, numa viagem que incluía a possibilidade de parar em vários outros sítios no Oriente, incluindo Macau. Com a pandemia, essa viagem acabou por ser anulada… Agora, pode haver convites, mas não sabemos se podemos viajar. Gostaria muito de voltar a Macau, até porque voltaria com outros olhos, mas um dia voltarei, isso é certo, nem que seja para passear. Se bem que, quando temos o vício da escrita, qualquer viagem acaba por ser literária, porque estamos sempre a recolher informações para escrever, mesmo que ainda não saibamos o quê.

Quando estive em Macau, uma jornalista perguntou-me o que levava do território e eu disse que não fazia ideia, mas que quando estivesse a escrever, as coisas iriam surgir. A inspiração não é mais do que ir buscar o que temos dentro e trabalhá-lo, por isso é tão importante conversarmos, lermos, vermos filmes, viajarmos, porque tudo isso é informação que está na nossa cabeça.

A literatura é muitas vezes reciclagem, pegar nessa bagagem que está na cabeça e criar outra coisa. Estes contos são exactamente isso, uma reciclagem de tudo o que eu tinha na cabeça, uma grande parte foi bebida quando estive em Macau, outra parte terá a ver com o meu imaginário sobre o Oriente, com coisas que li, filmes que vi, e é uma mistura de tudo isso. Aqui não houve necessidade de um rigor histórico profundo, foi, como se diz na música, uma variação sobre um tema.

Sara Figueiredo Costa

 

João Morgado

Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca 2021

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