VERA CRUZ: “A 22 de Abril houvemos achamento de terra…”

773
Está tua de Cabral (Porto Seguro) © João Morgado

IN: VERA CRUZ (p.222,223 _ V ed.) _________________

A PÁSCOA

“…Frei Henrique de Coimbra sacou da arca os seus melhores paramentos, os santos benzidos, o seu missal de capa debruada a oiro, uma toalha de linho bordada pelas freiras do Convento de Jesus, em Setúbal, um relicário e um castiçal de prata onde colocou uma enorme vela – “A luz de Cristo Redentor”.

A armada manteve-se agrupada. A maioria dos homens seguiu em escaleres até à Capitânea para participar nas cerimónias religiosas e pedir perdão pelas suas transgressões à Lei de Deus: jogo de azar, rixas, pequenos roubos, blasfémias, arrenegos, maus pensamentos, prazeres ilícitos a sós ou com outros homens, abuso dos jovens grumetes… Os franciscanos rezavam em voz alta. Como a Ordem não permitia o alívio das vestes, os frades[i] mantinham-se enfornados nos seus mantos marrons, de burel grosso e caparão curto, como se fosse um suplício. Sentiam-se desfalecer. Por piedade, embora muito a custo, alguns marinheiros lá partilhavam com eles as suas canadas de água limpa, matavam-lhes a sede em troca de orações para a salvação de suas almas pecaminosas.

João Morgado

Os oito capelões que vinham na armada e estavam espalhados pelas embarcações, também vieram para as cerimónias, mas um pouco mais libertos de roupagem. Os soldados não tinham protecções de metal, nem a malha de ferro, apenas calças de perna curta, botas de pele com fivelas, uma camisa fina e o cinturão de couro para as armas. A marinhagem nem isso, andavam de barrete por razão do sol, todos em tronco nu, quase sempre descalços. Alguns, de calções, outros apenas com uma tira de pano enrolada à cinta e uma entreperna que lhes tapava as vergonhas. A grande maioria com os cabelos desgrenhados e barba de palmo. E foi nestes preparos pouco dignos que a procissão solene se fez – ainda que sob protesto dos religiosos.

Estava “o calor de um forno de lenha” e foi impossível compor melhor aquela gente. Já Pedro Álvares Cabral, convidado a carregar o estandarte de Cristo, fez questão de se aprumar, como sempre, e apresentou-se de botas altas, calções tufados e uma camisa de linho onde assentava um colar de pedrarias com uma cruz em ouro ao peito. Na cabeça levava o barrete que viera de Roma, das mãos de sua Santidade o Papa, e que lhe fora entregue na ermida de Belém aquando da sua partida. Simão de Miranda fez questão de o acompanhar ataviado com primor, assim como alguns outros capitães trajados mais a preceito da ocasião. Se alguém do reino os pudesse ver naquele instante, tudo acharia burlesco, mas mesmo naqueles preparos de gente, lá se compenetraram da palavra de Deus.

Ainda que sem a exuberância do Santíssimo Sacramento, pois não havia hóstia, Frei Henrique estava admirável nos seus paramentos, como se estivesse numa catedral do reino. Os outros frades, mantinham o seu manto de pobreza e desprendimento. Um deles levava entre mãos um relicário que tinham trazido na viagem para colocarem numa futura igreja em Calecut, outro levava uma cruz e um cordeiro[ii] que tinha tirado do porão e que marchava entorpecido a seu lado. Os grumetes, de calção branco, levavam velas acesas e cantavam – desafinados, mas cantavam.

No final, os militares fizeram uma descarga de canhões, ao fim da qual se rezou a missa. Sendo o Domingo de Páscoa, o mais cerimonioso da Santa Madre Igreja, entendeu por bem um dos frades, de seu nome, Maffeu, desencaixotar também o órgão e ofertar a todos os presentes as suas sacrossantas melodias – um momento enternecedor para aquelas gentes duras e de pele salgada. Entoações barrocas que trouxeram à memória, a missa nas igrejas do reino. Uma memória mais ampla onde cabiam as famílias que tinham ficado em terra.

A música fez chorar muitos homens de barba rija, abrindo fissuras nos corações empedernidos daqueles lobos de mar, não tanto pelo tempo que já contavam de ausência, mas sobretudo pelo espaço de tempo que ainda sabiam em falta – nunca menos de um ano. Estava ainda a aventura no seu começo, estava “o andor ainda no adro da igreja”, diziam. Temiam o que os ocultos demónios lhes preparavam nos dias por vir e por isso se tornavam ainda mais fervorosos nas rezas. A homilia de Frei Henrique teve o condão de lhes insuflar alguma bravura, quando lhes recordou a missão que os levava até ao outro lado do mundo. Sentiram-se tocados por Deus, sentiram-se especiais.

Se algum medo ainda subsistia nas suas mentes, logo se dissipou aquando do cair da tarde, logo que foi servida uma refeição quente de carne e peixe, ervilhas, biscoitos dos melhores cuidados, generosas fatias de marmelada, queijo curado, e vinho, muito vinho, em abundância. E ainda pão feito a bordo com massa fresca e uns fios de azeite. Um marinheiro pobre não tem mãos sujas, apenas fome; até a comida pode vir suja quanto mais as mãos. Mas alguns destacavam-se. Discretamente, sem que os religiosos os vissem, antes de cada refeição, deitavam água do mar sobre a mão direita, três vezes. E depois repetiam sobre a esquerda. Depois recitavam umas rezas em surdina: Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus, Rei do Universo, que nos santificaste com Teus preceitos e nos ordenaste o ritual de lavar as mãos! Porque rezam às escondidas dos frades? Perguntavam muitos…

O mar estava cinzento como a lâmina de uma espada, mas cheio de brilhos. Os jovens fizeram depois um teatro religioso adestrado pelos franciscanosA Paixão de Cristo –, e depois todos se divertiram com a malhação do Judas. Por reinação, penduraram Gaspar da Gama numas cordas e foi o mártir que no papel de traidor teve de suportar a humilhação e o enxovalho dos cristãos, em grande algazarra. Era uma tradição. Uma brincadeira, nada mais, mas que a tal ele se sujeitou por amizade aos portugueses que tão bem o tratavam. Depois, noite alta, queimaram então um Judas. Desta feita, um boneco feito de panos velhos regados com óleo, que foi depois jogado ao mar em chamas.

A música e a folia dos homens encheram os ares naquelas paragens, quietos que estavam no meio do Atlântico. As âncoras estavam deitadas ao mar e ali se quedaram no outro dia, pois o vinho tinha adormecido os homens e toda a tripulação estava esgotada dos festejos. Só uns poucos asseguravam a manutenção das embarcações – ainda assim, a muito custo. Os outros tinham o corpo de defunto, apenas respiravam.

Com Ubiranam Pataxó, na Coroa Vermelha, onde aportou Pedro Álvares Cabral e se rezou a primeira missa.

“Terra à vista”

Terça-feira. Depois de uma jornada de quietação e ócio, eis que a armada volta a cavalgar os ventos e segue a trote pelos mares. A ondulação das naus é forte, rasgando as vagas, rompendo caminho. No dia seguinte, quarta-feira, dia vinte e dois de Abril, logo pela manhã, o grumete que ia na gávea do mastro maior deu o alerta de aves nos céus o que pronunciava a aproximação de terras. Os homens das outras gáveas também gritavam e apontavam os céus com espanto. Cabral trocou um olhar com o Mestre João e sorriu. Um olhar tão-somente, nem uma palavra. O capitão-mor disfarçou, mas não tinha ele sinal de espanto, mas sim a alegria de quem chega a um lugar de destino. E nesse mesmo dia, a hora de véspera, houve vista de terra a barlavento e logo foi dado sinal às demais embarcações fazendo tiros de bombarda. Primeiramente, enxergaram ao longe um grande monte, mui alto e redondo.

Com o aproximar da costa, logo deram boa conta de outras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grandes arvoredos. E porque estavam na Quaresma, ao monte alto chamou o capitão-mor, Monte Pascoal[1], e a tudo o resto deu ele nome de terras de Vera Cruz – “a verdadeira Cruz… de Cristo!”, sublinhou…”

 

 

 

João Morgado

VERA CRUZ

Criticas »»»

Compre AQUI »»

 

 

#TrilogiaDosNavegantes

 

 


 

[1] Duzentas milhas a sul da actual cidade da Baía

[i] Na Ordem do Franciscanos Menores Observantes com regras de pobreza simplificadas pelo Papa Leão XIII (das Reformas 1368/1897) – usavam hábito castanho e carapuça curta

[ii] “Cordeiro de Deus” é uma expressão utilizada no cristianismo para se referir a Jesus Cristo, identificado como o salvador da humanidade, ao ter sido sacrificado em resgate pelo pecado original.

 


 

Vera Cruz: “o melhor fruito…”