De joelhos

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© João Morgado

© Poema original __ Março.2020 * _______

Ainda estou de joelhos, não vejo o céu.

Deixa-me erguer as pernas, desdobrar as asas.
Deixa-me tirar o peso que tenho nos ombros,
   das doenças, das mortes,
   das cruzes, das infidelidades do mundo.

Deixa-me sacudir o corpo para afastar os abutres
   e apartar o suor do medo.

Ainda estou de joelhos. Não, daqui não se vê o céu.
É tanto o que me verga que não consigo levantar a cabeça
   e cabisbaixo ninguém vê o céu
   nem o sonho sequer.

Tenho que aproveitar este olhar térreo
   para redescobrir a minha raiz, o meu chão.
As forças chegarão depois 
   quando o teu clamor se fizer sentir.

Ainda estou de joelhos. Não, daqui não se vê o céu.
Mas já se vê a tua mão.
Oiço o teu grito: não desistas, estou contigo.
Deixa-me desdobrar as asas, chamar os pássaros.
Já te sigo.

João Morgado 

 

A incluir na colectânea “Rio de Pérolas” (2020 – Macau)

Pré-publicação na Gazeta de Poesia Inédita

*Em tempo de reclusão por causa da pandemia do Coronavírus (COVID-19)

 

“Madrugada” (poema)