A MORTE NEGRA em Lisboa (Excerto)

4981
© Hieronymus Bosch
IN: O Livro do Império, p. 132,133 ____________

“A peste começava com uma dor de cabeça, um febrão, depois uns furúnculos por todo o corpo. Uma agonia tremenda, e uma sede que um rio inteiro não matava, antes o rio os matava a eles quando se atiravam às suas águas. Os médicos que sangravam os bubões acabavam por morrer também, que a enfermidade parecia fogo em pasto seco. Era preciso pernas para andar na frente das chamas. Foi quando todos os que tinham liberdade e posses debandaram de Lisboa – incluindo o rei e todo o seu amedrontado séquito.

Fartados os adros das igrejas onde se enterravam as gentes, foi necessário abrir fossos para soterrar as centenas cadáveres que todos os dias tombavam na cidade. Era o medo propagado a galope. “Pelo sinal da santa Cruz, livre-nos Deus, Nosso Senhor, desta praga maldita.” Abrigaram-se muitos nas igrejas para pedirem o amparo do Cristo Redentor, ou o milagre da cura, pois já transpiravam sangue. A conspurcada mescla entre sãos e enfermos só aumentou a propagação do mal negro. Então, com sete trancas se encerraram portas das igrejas e dos conventos, o que enfureceu o povo.

Sentiam-se abandonados pelo rei e agora também por Deus. A revolta era tão grande que começaram muitos a saquear casas abandonadas dos senhores, sem que um militar viesse à rua a impedi-lo. Outros a apedrejar os vitrais das igrejas e os poucos monges e sacerdotes que levavam as sotainas à rua. Entendeu a Igreja que era preciso desviar a rábia daquelas gentes perdidas, e apontaram os cristãos-novos como alvo para toda aquela fúria. Eles eram os deicidas, os matadores de Deus – mesmo os conversos. Eram eles os culpados de todo o mal. Andavam a “empeçonhar os poços d’água”, diziam. Muitos deram com os ossos nos cárceres, mas isso parecia aumentar o andanço do mal. Havia era que aviar os judeus, rasgá-los, arrastá-los pelas ruas, apedrejá-los, queimá-los vivos, como se eles não morressem por si só como todos os outros, com bubões malquistos por todo o corpo. A morte de muitos foi só o abreviar da dor a que eles estavam sujeitos, eles como todos os mortais, perecíveis, e que viam esgotar-se o seu tempo terreno. Quase agradeceram as facas, as chamas. Foi um tempo de matanças em Lisboa, um tempo de destemperos morais daquela gente ensandecida, que bebia o medo e a crença pelo mesmo cálice.

E o fanatismo era de tal forma brutal, que levava mesmo ao morticínio dos próprios corpos. Os flagelantes andavam em bandos pelas ruas, semi-nus, chicoteando-se nas costas com látegos – tiras de cabedal com fragmentos de vidros e bicos de metal. Ensanguentados, martirizados, estavam seguros que o seu sacrifício acalmarias as fúrias de Deus e lhes permitiria a graça da salvação.

Em oposição, entenderam outros que se a morte era um fardo divino e sem escape, o melhor seria comer e beber, encher o bandulho até rebentar. E já que Deus os escorraçava da terra, era viver o que sobejava dos dias como o diabo gostava. Encheram-se assim os prostíbulos de gente aloucada, em orgias que festejavam o corpo de carne sã e tesa, acreditando que o prazer que da terra se levava, recompensado seria no inferno. E porque a carne dos corpos vendidos e oferecidos, de macho e de fêmea, se mostravam tão ou mais mortais que os demais, logo a sombra negra da pestilência os levou a tossir sangue. Dizem que muitos fornicavam mesmo assim, na bestialidade do tesão macabro do apocalipse, no arrebatamento do fim-do-mundo.

(…)

Aos poucos iam sendo tomadas medidas: reforçar o abastecimento de víveres à cidade; assear as ruas e impedir o jorro de dejectos para as mesmas; acender fogueiras de lenhas cheirosas na via publica de manhã e à noite; evitar expor ao ar o sangue das sangrias e extraído por seringas; mandar queimar as roupas de menor valor das pessoas assoladas pela doença.

As missas, a que não faltavam as beatas apavoradas com a zanga de Deus, eram já campais para atalhar a irradiação do mal – ainda assim era uma terra negra e amaldiçoada. Os vivos por vontade dos céus e os frades que, pelas Santas Chagas de Cristo ainda estavam sobrevividos à pestilência, começaram a alinhar uma piedosa procissão para dia 20 de Abril, quinta-feira. Uma penitência em honra da Virgem, mãe-misericórdia, certos de que assim intercederia pela salvação de todos junto de Seu Filho-Deus. Prometeram que tal cortejo sairia todos os anos, como agradecimento pelo apoio divino – “Ó Senhora da Saúde, orai por nós pecadores…salvai-nos!” – era a última esperança para que se findasse aquela epidemia desgraçada.

Ana de Sá queria ir até à capela[i] agradecer o regresso do filho, a sobrevivência de todos. Luiz Vaz disse que era loucura. “Ajuntamentos é pasto para a peste”. Antes fosse com eles rezar nas margens do Tejo que a Virgem-Mãe a ouviria melhor. Assim, nenhum dos três foi descalço na procissão cantando ladainhas, nem açoitou as costas, nem carregou pesadas cruzes às costas, nem fez promissões, nem afogueou velas. Limitaram-se a colocar uma candeia à porta de casa como lhes fora pedido. De resto, tomaram sol para disfarçar o cheiro do vinagre, pescaram peixe fresco e sorriram à vida.

Naquela semana foram as mortes crescendo em grande conto, pois ficara assanhada a maldita com tal ajuntamento. Aumentavam os entaipamentos das casas, tábuas em cruz nas portas e janelas, mais e mais cruzes, umas brancas de cal, outras de azarcão, que mais parecia tinta sugada no sangue dos mortos. Era forte o cheiro a podridão.

Os apedrejamentos às igrejas mostravam a descrença no divino, que tinha orelhas moucas a tantas preces. Havia velhos e crianças largados pelas ruas, entregues a si próprios e ao destino, que não havia quem os cuidasse. Um físico que fora apanhado a dissecar cadáveres para estudar os bubões, fora queimado vivo – nem Deus salvava nem a ciência. “Cheira a morte, não cheira? Não a sente?”, perguntara a velha senhora.

– Lisboa, a capital do reino, era uma necrópole bafienta assolada pela peste e pela Inquisição…”

 

João Morgado

In: O Livro do Império

Criticas »»

Comprar: Clube do Autor

 

 

 

 


 

«Além de estar escrito num primoroso estilo literário, como já é seu timbre nos outros livros publicados, revela um profundo conhecimento da vida de Camões, conforme as várias versões que dela foram publicadas, referidas na riquíssima bibliografia que apresenta e que inclui também as múltiplas obras históricas, nas quais fundamentou a sua narrativa. As notas de rodapé, como também as variadíssimas notas que regista no final do texto, enriquecem substancialmente o seu romance. Consegue com elegância e destreza conciliar admiravelmente a história com a ficção, descrevendo episódios que nos encantam pela sua beleza literária e verosimilhança factual. Felicito-o, pois, vivamente por mais este belo romance histórico.»

Malaca Casteleiro

-investigador e linguista português-


 

O retrato de D. Sebastião