Magalhães, o gelo e o calor da esperança…

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Tomando por base uma imagem do documentário da fundação da Malásia Yayasan DMDI "Henrique de Malaca o Malaio e Magalhães
In: Fernão Magalhães e a Ave-do-Paraíso, pag. 143-144

« (…) “Nos vamos a morir en este pozo de hielo…” [1], bradavam os mais desesperados. Primeiro calavam-nos com palavras de conforto, depois com mensagens de coragem e ânimo, por fim atalhavam as queixas com chicotes. “Cierra la boca! Nadie va a morir aquí…” Não acreditavam, mas calavam-se por medo. Cerravam a boca por uns instantes, até que outro companheiro retomasse o queixume.

Os clérigos rezavam em voz alta para abafar os gemidos. “Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum, Benedicta tu in mulieribus, Et benedictus fructus ventris tui…” [2]. Havia uma névoa que se lhes desprendia da boca na aragem fria. Tremiam-lhes os lábios, mas sentiam que podiam com as suas preces aquecer a alma dos homens, assim como a lareira lhes aquentava os corpos.

As reservas de lobos-marinhos estavam a findar-se e com os nevões não se encontrava caça. Viviam de algum peixe que se pescava na baia, um pouco de mel e uns queijos muito racionados pelo despenseiro. Por vezes, de uns ratos que procuravam calor. Acabavam nas brasas e trincados bem quentes. “A cabeça dos ratos, fria, sabe a merda…!” Valiam-lhes umas réstias de alho e um pouco de mostarda, o que ajudava a disfarçar o paladar a toda a porcaria que podiam trincar. Sobrava ainda um pouco de mel.

Todos esperavam a acostumada frase: confiem em mim, tenho um plano! A verdade é que não tinha um plano. Limitava-se a olhar os céus cinzentos, quase sempre enevoados, onde se viam poucas aves.

De noite ouviam-se uivos, como se fossem lobos a rondar aquele lugar. Metiam medo a toda a marinhagem. Quando a fogo de mosquete mataram uma espécie de raposa que se acercara do arraial, uns guerrearam por um pedaço de carne, outros pela sua pele acinzentada. Tiveram que os militares ditar a ordem com as espadas. Mas as altercações eram mais que muitas, a meio da noite aparecia sempre alguém ferido com uma adaga, uns por paixões mas resolvidas, outros por dívidas de jogo, outras simplesmente pelas raivas de animal encarcerado. Nunca ninguém via nada ou acusava alguém, ficavam os pecados no negro íntimo de quem os praticava.

“Hoje, um dos grumetes finou-se enregelado com o frio …”, comentou o capitão Álvaro de Mesquita, puxando a pele de veado sobre o pescoço para se resguardar do vento. A pelagem oscilava apesar de bastante suja. “Estamos sitiados pela neve.”

Um suspiro e um vergão enorme na testa de Magalhães. Os flocos brancos entravam pelas frestas das madeiras e ficavam a dançar nos ares. “Mas se saímos daqui, será pior…”, resmungou. Nos barcos haveria ainda menos comida e não se poderia acender fogo a bordo, além do mais podia acabar nos fundilhos do mar numa qualquer procela dos diabos.

“Os homens estão a finar-se. Não há linimentos, esfregões ou gargarejos que os salve. Comem o frio, enregelam por dentro… algo temos de fazer!”

Espinosa temia uma revolta da guarnição e pedia também que algo fosse feito, pois as peles e as barbas estavam brancas, pareciam “ursos brancos”, resmungavam eles. Outros faziam eco do mesmo pedido. Pressionado, Magalhães via dezenas de olhos sobre si, mas nada tinha para lhes dar. Todos esperavam a acostumada frase: confiem em mim, tenho um plano! A verdade é que não tinha um plano. Limitava-se a olhar os céus cinzentos, quase sempre enevoados, onde se viam poucas aves.

 

“Antes uma vã esperança, que o desespero…”

 

A neve caia noite e dia, mas ainda assim, deu-se conta de que as borrascas tinham acalmado um pouco. Refletiu por uns minutos e chamou então Juan Serrano. No seu jeito de fala grossa e poucas palavras, pediu-lhe que se fizesse ao mar com a pequena Santiago [3] e bendito é o fruto do vosso ventre…”  . Que seguisse para sul até encontrar um lugar mais abrigado para a armada, ou mesmo o cabo daquelas terras, que lhes desse passagem para “o outro lado”.

Serrano era um homem maduro e confiável, colocou-lhe o braço no ombro e fez com a cara um sinal de concordância. O jovem Rebelo logo se ofereceu para seguir com ele, mas Magalhães travou-lhe o passo. Carregaram a nau com os poucos víveres disponíveis, derreteram neve para terem água limpa e, quase quarenta homens partiram na manhã seguinte, bem cedo, pela aurora.

Foi preciso quebrar o gelo em torno da embarcação, com arpões usados para caçar baleias e forrar a proa de metal para abrir caminhos por entre as placas geladas que flutuavam nas ondas. Ia ser uma viagem agreste e dura. Uma expedição solitária que dava poucas garantias a Magalhães, mas que passava à tripulação um certo alento. Isso calaria os homens por uns tempos. Era o plano possível naquela lonjura do mundo, onde apenas se ouvia o vento.

“Antes uma vã esperança, que o desespero…”, disse para si mesmo, cofiando as barbas negras e bastas… »

 

 

João Morgado 

Fernão de Magalhães e a Ave-do-Paraíso

Romance – Esfera dos Livros – 2019

Trilogia dos Navegantes

 

 

 

1 “Vamos morrer neste buraco gelado…!”

2 – “Ave Maria, cheia de graça, O Senhor é convosco. Bendita és tu entre as mulheres, abençoado e bendito é o fruto do vosso ventre…”

3 Era a nau mais pequena da frota, com apenas 75 toneladas de capacidade de carga e, por isso, mais fácil de manobrar.


“Há muito que não líamos um romance cujas páginas desafiavam tanto os limites do humano, arrepiando-nos.”

Miguel Real, In: Jornal de Letras, 23.10.2019

 


 

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