OS LIMITES DO HUMANO (em Magalhães e a Ave-do-Paraíso)

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Miguel Real IN : JL – Jornal de Letras (23.10.2019) ______________ 


Após uma trilogia dedicada aos Descobrimentos, Vera Cruz (2015, história da vida e obra de Pedro Álvares Cabral), Índias (2016, história da vida e obra de Vasco da Gama, Prémio Literário António Alçada Baptista) e O Livro do Império (2018, sobre Camões, o Império e a publicação d’Os Lusíadas), João Morgado deu a lume este Setembro Fernão de Magalhães e a Ave-do-Paraíso, com prefácio e consultadoria técnica de José Manuel Garcia e apresentado por João Paulo Oliveira e Costa, um historiador e romancista histórico de alta qualidade.

Se O Livro do Império foi estruturado segundo um enfoque pós-moderno, em que História e Ficção se problematizavam mutuamente, Fernão de Magalhães é um regresso do autor ao romance histórico clássico, uma narrativa que segue a par e passo os dados históricos documentais, destacando os momentos e os episódios principais da viagem de circum-navegação de Magalhães, acrescida – tanto quanto nos parece – de quatro elementos ficcionais que superam o registo histórico:

1. – as partes que se relacionam com a ave-do paraíso;

2. – o retrato psicológico de Magalhães e de alguns membros da tripulação (extremamente bem feitos);

3. – a descrição do sofrimento (não exagerado, antes verdadeiro) que os homens da armada sofreram ao longo da viagem de dois anos, principalmente durante a passagem do Oceano Atlântico para o Pacífico e ao longo da travessia deste;

4. [talvez o mais importante porque (a) constitui o capítulo inicial e (b) marca o sentido da fuga de Magalhães para Sevilha, transformando a sua vida num destino de herói), a substituição do cognome “Venturoso” de D. Manuel I por “Rei-Não”, desenhando (para Magalhães, claro) o modo atrabiliário e arbitrário como governava o reino (cf., para além do primeiro, o capítulo “A armada da perseguição”). Na sessão de apresentação, João Paulo Oliveira e Costa suavizou o retrato negativo de D. Manuel presente no romance.

De Fernão de Magalhães e a Ave-do-Paraíso destacaríamos com alto valor qualitativo a dimensão humana das personagens, a narração dos hercúleos tormentos colectivos sofridos pela tripulação ao longo da viagem, bem como a descrição in actu das características psicológicas individuais, nomeadamente a coerência ao longo de todo o romance por que é desenhada a personalidade de Fernão de Magalhães, homem obsessivo, a raiar os limites do fanatismo, capaz de morrer na defesa da sua ideia…

 

Como é tradicionalmente aceite, o romance histórico, sendo eminentemente um romance, deve ser avaliado como outro qualquer género de romance. Porém, sendo histórico, deve pagar o tributo à História, isto é, estabelecer uma relação com os documentos ou narrativas que fundamentam o tema tratado. Esta relação pode ser realizada de vários modos, inclusive pela dissonância ou desarmonia entre Ficção e História, como acontece, por exemplo, com Saramago (História do Cerco de Lisboa) ou com António Lobo Antunes (As Naus), na qual (dissonância) a Ficção ganha um papel, não mimético, mas de iluminador da História.

Fernão de Magalhães estatui-se como um romance mimético da História e só assim fez sentido o autor socorrer-se de um “assessor técnico”, registar com abundância inúmeras notas de rodapé, bem como 15 pp. de “Notas Finais” e uma extensa bibliografia. Como Saramago apontou aqui, no JL (nº 400, 5/4/1990), de um modo muito límpido, existem duas opções para o romancista histórico, “uma, [narrativamente] discreta e respeitadora, que consistirá em reproduzir ponto por ponto os factos conhecidos, sendo a ficção mera servidora de uma fidelidade que se quer inquestionável; a outra, ousada, levá-lo-á [ao romance histórico] a entretecer dados históricos não mais que suficientes a um tecido ficcional que se manterá predominante”.

Neste romance, João Morgado optou pela primeira vertente; n’O Livro do Império, pela segunda. A verdade é que há leitores para as duas vertentes, ainda que nos pareça (pela experiência de contacto com leitores em bibliotecas e escolas) que, com excepções, a maioria prefere a primeira vertente, a clássica. Transversal e superior a estas apreciações, como a obra de Fernando Campos nos ensina, impõe-se a qualidade narrativa do romance.

Fernão de Magalhães no Padrão dos Descobrimentos (Belém – Lisboa)

De Fernão de Magalhães e a Ave-do-Paraíso destacaríamos com alto valor qualitativo a dimensão humana das personagens (cruzamento dos pontos 2. e 3. acima enunciados), a narração dos hercúleos tormentos colectivos sofridos pela tripulação ao longo da viagem, bem como a descrição in actu das características psicológicas individuais, nomeadamente a coerência ao longo de todo o romance por que é desenhada a personalidade de Fernão de Magalhães, homem obsessivo, a raiar os limites do fanatismo, capaz de morrer na defesa da sua ideia e de, espantosamente, com ajuda de Ruy Faleiro (verdadeiro retrato do homem do Renascimento, tão científico quanto supersticioso), capaz de convencer, em Valladolid, a corte de D. Carlos I de Espanha (futuro Carlos V do Império Romano-Germânico) dos benefícios da viagem para o império castelhano. Capaz, ainda, contra as dissidências de alguns capitães, que contra ele se revoltaram ou o abandonaram, de persuadir a tripulação da armada a seguir em frente quando, tão volumosos e ingentes os obstáculos, tudo apontaria para que se retornasse a Sevilha.

Do mesmo modo, ressalta, na descrição da viagem de circum-navegação, os conflitos entre a capitania portuguesa e a castelhana, os registos escritos da personagem italiana Lombardo (Antonio Pigafetta), as tempestades a sul do rio da Prata e a penetração em mares totalmente desconhecidos, a rivalidade com o piloto Estêvão Gomes, os grandes nevoeiros e os grandes gelos do sul do novo mundo, que congelavam o sangue e forçavam o corte de membros ou a morte por hipotermia (pp. 143-5: narração de autênticas cenas de terror), o encontro com os Patagões, a descrição do naufrágio do Santiago, o abandono de marinheiros revoltoso nos confins gelados da Patagónia, a descoberta do estreito para o Mar do Sul (Pacífico), hoje Estreito de Magalhães…

Enfim, a viagem de Fernão de Magalhães, continuada e finalizada por Sebastián Elcano, sintetizando de certo modo o espírito pioneiro ibérico dos Descobrimentos, constituiu-se como uma verdadeira epopeia, ainda mais aventurosa, devido aos suplícios vividos, ao pavor do desconhecido milha a milha, às dissensões entre a tripulação e, sobretudo, à distância percorrida, do que a de Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral. Felizmente, para a História, houve um Pigafetta a relatá-la, mas não houve um Camões a poetizá-la.

Há muito que não líamos um romance cujas páginas desafiavam tanto os limites do humano, arrepiando-nos.

 

Miguel Real IN: JL – Jornal de Letras (23.10.2019)

 

 

 

Fernão de Magalhães e a Ave-do-Paraíso,
A Esfera dos Livros, 320 pp., 18 euros.