O mar é «um sacana dos diabos que não tem coração»

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IN: Céu do Mar

 

Póvoa de Varzim, 1892

O chão é de areia fina e a casa de madeira. Há ripas de cores variadas que lembram velhos barcos despedidos do mar. Tal como os marinheiros, os barcos também envelhecem, só o mar permanece novo. Talvez por isso seja travesso como todos os jovens, talvez por isso tenha uma força desmedida quando está bravo, talvez por isso não saiba medir o estrago que faz em quem o ama; os jovens impetuosos como o mar, magoam sempre os que estão mais próximos. E o mar, aquele que é sempre novo, um dia levou um pescador que ainda envelhecia.

A coisa mais triste que pode acontecer a um homem, é que o não deixem envelhecer, que lhe coloquem uma cadeira vazia como ponto final na sua biografia.

Um homem faz falta no mar, mas faz mais falta à mesa onde se reparte o pão entre os seus. Morre cedo todo o pescador que fica nas águas revoltas, porque a morte vem sempre cedo de mais.

Sempre, sempre cedo demais. Mas, quando leva um pescador cujo filho ainda nem sequer nasceu, então o mar é «um sacana dos diabos que não tem coração», diz a Ti’Carminda.

Ao seu lado tem uma cadeira vazia. Vazia. O resto são farpelas velhas, os paneiros com as redes para secar o peixe, as agulhas de fazer e remendar rede de pesca, dois tijolos para a panela e fazer lume, um colchão de folhelho onde dorme ao lado do filho, com o ramo de oliveira na cabeceira, o mesmo é dizer – pobreza de viúva.

Já empenhou os ouros que tinha, haveres de quando o seu homem era mestre e trazia para casa o bom pescado que ela vendia na lota. Dessa fartura restavam as memórias e meia-medalha de ouro com a Senhora da Esperança. A outra meia-medalha levava-a sempre o mestre Moreia para o mar, e por lá ficou com ele, porque dele nada foi visto ou achado.

Dizem que se deitou ao mar para salvar um companheiro e nem um nem outro regressaram – nem vivos nem mortos, que Deus nem a esse trabalho se deu. Resta-lhe desdenhar da morte e esperar que ele regresse um destes dias e lhe assome ao postigo da porta como quando namoravam. Vive nesta esperança há anos e anos…

«Ele está só atrasado!», murmura como quem reza…”

 

in: Céu do Mar
João Morgado

PRÉMIOS do ROMANCE

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“É uma notável obra que se lê e relê, e onde se pode cheirar até a neblina da Póvoa.
Aborda um dos maiores dramas da comunidade pesqueira.”

José Inácio Sousa Lima
Presidente da Fundação Dr. Luís Rainha (Póvoa do Varzim)


 

 

«Mãe, quero ir para o mar…»