«Mãe, quero ir para o mar…»

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O garoto que quer ir para o mar… IN: O CÉU DO MAR


 

“«Mãe, quero ir para o mar…», dizia ele de pele morena e jeito vivaço.

«O mar ainda não cabe nos olhos de Deus, por isso deixa-te estar… envelhece».

O catraio baixa os olhos com tristeza, mas ainda pergunta: «Com que idade o pai foi para o mar?».

Carminda mostra-se inquieta e irritada. «Não me lembra. Mas sei a idade que tinha quando o mar foi para dentro dele e não o deixou regressar… não me peças para partir se não podes assegurar que voltas.»

Pedro sentia-se imortal como todos os jovens, por isso garantia à mãe que voltaria, que voltaria sempre. Mas as viúvas são duras de ouvido, não ouvem o lhes lembra a morte – por isso fez orelhas moucas às súplicas do filho.

«O mar é traiçoeiro, não o quero dentro de ti».

Pedro ainda argumenta como pode, mas ela não o ouve. As suas palavras eram como o rumorejar das ondas – vêm e vão, depois perdem-se na maré baixa.

«Lembra-te, do mar não vem só peixe. Também chegam tábuas e mortos», diz ela, enquanto mexe a sopa de cação que está ao lume. «Do mar não vem só peixe, do mar não vem só peixe…» repete a mulher que tem uma cadeira vazia ao seu lado…”

 

in: Céu do Mar
João Morgado

PRÉMIOS do ROMANCE

Prémio Nacional de Literatura LIONS 2015
Prémio Literário Dr. Luís Rainha, Correntes d’Escritas 2015

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«Lê-se de um folgo, pela sua escrita clara, poética, metafórica, com uma estrutura de repetições que mais parece as ondas do próprio mar (…) com personagens que retratam as pessoas que nós conhecemos. É um verdadeiro postal da Póvoa, e da sua comunidade piscatória.”

Luís Diamantino

Vereador da C. M. Póvoa de Varzim


 

 

O mar é «um sacana dos diabos que não tem coração»