Vera Cruz: “o melhor fruito…”

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Indios a arte de "Rosarlette Meirelles" na Sala Indígena de Belmonte (Portugal)
O achamento do Brasil e a carta de de Pêro Vaz de Caminho _ In: Vera Cruz ____

 

 

«…Durante os dez dias que os homens de Pedro Álvares Cabral por ali aportaram, mostraram ser de paz aquelas gentes nuas. Lembrando a Páscoa e olhando para a enorme cruz que tinha mandado afixar no tombadilho, a todo aquele território o capitão-mor chamou – Terra da Vera Cruz – ou seja, terra da verdadeira Cruz, sinal declarado da disseminação da fé…

“Terra? ou ilha da Vera Cruz?”, ainda questionou o escrivão. Mas Cabral não teve dúvidas e mandou assentar terra, ciente de que se tratava de muito mais que uma ilha. E mandou ainda que de tudo boa nota tomasse Pêro de Vaz de Caminha[i], para mais tarde escrever uma carta a El-Rei Dom Manuel I. O escrivão da armada mostrou brio na empreitada que tomou a seu cargo e escreveu inúmeras folhas com letras cuidadas e miudinha, que muito havia para contar e o papel era escasso.

João Morgado com Raoni e familia, índios Pataxós, junto da estátua de Cabral (Belmonte)

E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta vossa terra vi. E, se a algum pouco alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha de vos tudo dizer mo fez assim pôr pelo miúdo”, escreveu ele. Nesse manuscrito, Caminha contava como tinham trocado mercadorias com aquelas gentes sem malvadez, e em como eles tinham participado respeitosamente na missa do Frei Henrique de Coimbra, junto a uma enorme cruz que ali haviam chantado com as armas e divisa de Sua Alteza Real.

Não houvera tempo para saber se por lá havia ouro ou prata, mas por outro lado – contava Vaz de Caminha -, mostrava-se toda aquela terra de maneira tão graciosa que, por certo, tudo “se daria nela por bem das muitas águas que tinha”. Para logo sublinhar:

Mas o melhor fruito que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar, para acrescentamento de nossa santa fé”.

Também o Mestre João Faras teve instruções para escrever ao soberano, dando conta da localização das costas da Vera Cruz. Apesar de andar manco da sua perna – que tinha a cada dia que passava uma chaga maior -, este saiu a terra com um grande astrolábio que mandara fazer em madeira. O carpinteiro da Capitânea tinha-se esmerado naquela estranha tarefa e o astrónomo mostrava-se satisfeito. Estava esperançado que o tamanho de tal instrumento lhe daria maior fiabilidade e que assim o seu erro de cálculo seria menor. Com a ajuda dos pilotos Afonso Lopes e Pêro Escobar, mediu a altura do sol ao meio-dia, comparou com os cálculos dos pilotos sobre as léguas percorridas e estimou a distância a que se encontravam do cabo da Boa Esperança.

Calculou ele a latitude em que se localizava a nova terra – aproximadamente dezassete graus[1]. E disso deu conta na sua missiva, num misto de português e de castelhano, que denunciava a sua origem. Mas para que El-Rei tivesse uma ideia mais exacta da localização das terras achadas, logo lhe recomendou o estudo de um mapa-múndi que segundo ele se encontrava em Lisboa, na posse de Pêro Vaz da Cunha, o Bisagudo, e onde as mesmas estariam já meio-esboçadas.

Pela primeira vez, identificou também uma constelação a que, pela sua disposição, chamou Crux do Sul[2] – desenhou mesmo um esquisso da disposição das estrelas, dando conta da sua muita importância para quem quisesse navegar ao longo do hemisfério sul. Segundo ele, estas cinco estrelas poderiam suprir a Estrela Polar quer era a referência dos navegantes do hemisfério Norte, mas que eles perdiam de vista quando singravam para Sul e transpunham a linha do Equador. Graças àquelas estrelas, afiançava ele, seria de novo possível determinar as latitudes de todas as embarcações. E perante a importância de tão proveitosos achados e estudos que ali vertia, logo aproveitou para dar conta do seu desagrado a sua Majestade, pelas condições exíguas da nau e pela incapacidade de por ali efectuar leituras precisas: “…me parece ser impossível, no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus (…) Para o mar, melhor é dirigir-se pela altura do sol, que não por nenhuma estrela; e melhor com astrolábio, que não com quadrante nem com outro nenhum instrumento. Do criado de Vossa Alteza e vosso leal servidor”…»

(VÍDEO) – Cristina Ferreira (TVI) entrevista indios Pataxós

 

[1] A medição da latitude da baía de Cabrália está actualmente fixada em 16º 21′ S por conseguinte, uma margem de erro inferior a 40′ por excesso, o que foi notável tendo em conta os meios ao dispor naquela altura.

[2] Mais tarde denominada “Cruzeiro do Sul”. Não marca verdadeiramente o Sul, mas quase, pelo que foi adoptado como um equivalente austral da “Estrela Polar” – tornou-se a constelação mais conhecida do hemisfério celestial sul, e é um dos símbolos que integra a bandeira nacional do actual Brasil (ainda que invertida, como se observada de “fora” da nossa esfera celeste).

[i] O manuscrito de Vaz de Caminha, tem vinte e sete páginas, 29,6 cm X 29,9. Esquecido durante séculos, foi encontrado para estudo no arquivo nacional, localizado na Torre do Tombo, Lisboa, em 1773, pelo director de então, José Seabra da Silva

 

João Morgado

VERA CRUZ

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Em momento de declínio da moda literária do romance histórico (…) o autor continua, com probidade, a visão de Alexandre Herculano, fundador do romance histórico em Portugal, sobre a confecção rigorosa deste género literário: verosimilhança ou similitude na história, no desenho das personagens e no enredo definidor da acção, e fidelidade aos documentos da época.

MIGUEL REAL

Critico Literário In: Jornal de Letras