A pintora e o cego

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As diferentes linguagens do amor _ IN: Diário dos Infiéis ___

(Luísa) – A esplanada está cheia de gente que não me conhece, que não conheço, que não quero conhecer. Reconheço apenas o sol que me beija o rosto. Para além do meu filho, são os únicos beijos no rosto. Sinto-me só nesta esplanada cheia de gente. Sinto-me só e triste. Amarga, doída por dentro. E sinto que quanto mais me zango com a vida e me revolto, mais me sinto só, triste, amarga e doída por dentro. Como se não houvesse nada que eu pudesse fazer. Como se todos me olhassem com desconfiança. Como se ninguém me entendesse. Que mal fiz eu às pessoas? Que mal fiz eu à vida? Que mal fiz eu ao Leonel para não me dar beijos como o sol?

«As pessoas não são amadas, fazem-se amar», diz-me a Dora, que se sentou a meu lado, de rosto ao sol e com um sorriso revelador de beijos que vão muito além dos beijos que o sol dá. “O que tens feito para ser amada?”

Pergunta mas não espera pela resposta. Como se a soubesse. E vai desenvolvendo o exemplo de uma colega sua, uma médica africana, casada há vinte e cinco anos. «Todos os dias acordo solteira», diz ela. «E todos os dias me deito com o homem que conquistei nesse dia. Acontece que, nos últimos vinte e cinco anos, conquistei sempre o mesmo homem. Na verdade, nunca é o mesmo homem. Foi mudando com o tempo. E não falo só das rugas marcadas, do cabelo branco. Falo do homem que é por dentro, cheio de sonhos, fracassos, sucessos e pecados. E porque cada dia é diferente, cada dia tenho de o conquistar de diferente maneira. Tenho de o conquistar, sobretudo nos dias em que estou cansada e triste, sobretudo quando tenho todos os motivos para lhe virar as costas, para o odiar. Porque, se deixo que o tédio e o ódio se instalem, perco a linha condutora de tudo o que me leva até ele e tenho medo de nunca mais a reencontrar.»

«Primeiro Deus, depois eu, depois o marido, depois os filhos. É a ordem certa do amor», diz ela. «E hoje tenho um homem para conquistar!»

– Quem conquistaste hoje? – pergunta a Dora.

Não tenho paciência para esses jogos.

– Eu sou quem sou – respondo. – Só posso ser quem sou. Não posso ser diferente. Sou o que a minha natureza quis que eu fosse, ponto final.

– Então foi a tua natureza que te fez triste, só, amarga, doída por dentro – atira a Dora, como se fosse um diagnóstico médico. Como se eu fosse uma paciente a quem se revela uma doença congénita. Como se a infelicidade estivesse nas minhas análises ao sangue, para além de esparramada no rosto. – O meu pai – avança de novo a Dora – costumava contar a história da pintora e do cego: uma grave doença subtraiu-lhe a luz do olhar, deixando-o mergulhado na escuridão.

A mulher, que era pintora, levava-o todos os dias para o seu ateliê e cuidava dele enquanto pintava. Este acompanhava-a nas suas exposições e ouvia como ela descrevia os seus quadros, os seus traços, os matizes das suas figuras. Uma noite, numa galeria, encontrou o marido à conversa com uma escultora a quem elogiava a sensualidade das peças, enquanto as suas mãos acariciavam as formas arredondadas de pedra polida. Foi mais que ciúme. Como se fosse uma infidelidade ao seu amor, sentiu uma dor que lhe entrava no corpo pelo ar que respirava e lhe magoava os pulmões, o peito.

Turn Down These Voices Inside My Head, de Paul Lovering

Chorou pelo facto de o marido elogiar o trabalho de outra, quando nunca tinha dado valor à sua obra nem reconhecido o seu prestígio de pintora, o desvelo com que cuidava dele ao mesmo tempo que cuidava da sua arte.

«Eu sempre te dei valor», disse o cego. «Fico feliz por ti, feliz por saber que reconhecem a tua obra, mas a tua obra não me faz feliz. Para mim, todos os teus quadros são pretos, pois só há negro na paleta da cegueira. Apesar dos teus cuidados, não imaginas o quanto odeio ficar no ateliê, o quanto me sinto preso sem poder fugir daquele cheiro de tinta que me recorda que o mundo tem cores e que eu não as vejo. Não sabes o quanto odeio que me fales da minúcia do teu traço, quando a minha visão do mundo é apenas um borrão escuro, disforme, sem vida.»

«Mas que posso eu fazer?», pergunta a pintora. «É a minha natureza. Não escolhi ser pintora. Sou pintora. Vivo das cores.» «Que posso eu fazer?», pergunta o marido. «É a minha natureza. Não escolhi ser cego. Sou cego. Vivo na escuridão.»

– Mas que fez ela de mal? – pergunto eu. – Não fez tudo o que estava ao seu alcance, o que seria de esperar dela?

– Que fez de mal? Nada – responde-me a Dora. – Nada fez de mal. Mas, por vezes, a infelicidade dos outros é apenas uma casta imprevidência do nosso lado, não uma maldade. Porque fazer tudo bem não basta. É fundamental fazer bem as coisas certas. A natureza fez-nos individuais, únicos. Somos nós que escolhemos viver uns com os outros. Se formos apenas o resultado da nossa natureza, teremos de continuar sozinhos. Se queremos viver para além de nós, criar relações de bem-querer, de afectos, teremos de moldar a nossa própria natureza à natureza dos outros.

Ou seja – concluiu a Dora –, uma pintora nunca fará um cego feliz com as suas telas, por mais firme que seja o seu traço, o brilho das suas cores, a excelência das suas obras, a vontade mais profunda de lhe agradar… Luísa, tenho a certeza de que és uma excelente pintora e que procuras fazer tudo bem… – disse a Dora.

«Mas terei feito as coisas certas?», perguntei-me, fechando os olhos para não chorar. Fechando os olhos com toda a força, para imaginar a negra cegueira do Leonel…

 

João Morgado

IN: Diário dos Infiéis

Romance, Leya, 2017 (3ª Ed.)

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«Parece que João Morgado já leu tudo sobre o amor, de Ovídeo a Stendhal (…) tem uma escrita compacta e assertiva. Isto é, cheia de pensamentos categóricos, de uma escrita vivida, conclusiva…»

Manuel da Silva Ramos In: Prefácio, 2010


 

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