Camões: A Primeira página…

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Os Lusíadas, 1ª Ed. Original
A medieval oficina de impressão e a primeira página d'Os Lusíadas (Excerto) __ In: O Livro do Império ___

“Luiz Vaz, hoje estão a compor a primeira página dos Lusíadas… é um dia glorioso!”

Subiram a colina a caminho do castelo, até à ruela estreita onde se situava a imprensa do mestre. Um lugar térreo, de tecto baixo e de caibros enegrecidos pelo fumo de um forno enorme. Cheirava a óleo, tinta e urina. D. Manoel conhecia a casa. Logo tratou de procurar um casinhoto de ripas, lá bem nos fundos, para acertar com o mestre o negócio da edição. Arrastando-se no seu usual mancar, sempre arrimado à bengala, Camões vagueou pela oficina na companhia de Jau.

Tipografia medieval

Numa das alas mais iluminada, havia como que um altar – uma enorme e negra banca de madeira velha, em plano inclinado, com bastas divisórias, umas duzentas, talvez mais. Em cada uma, diferentes tipos fundidos de letras invertidas, uns redondos, outros itálicos. Não estavam as letras arrumadas por ordem alfabética – os impressores tinham o lado prático do seu trabalho, colocavam ao centro da mesa as letras mais comuns, sobretudo, as vogais. A experiência levou-os igualmente a colocar nas caixas baixas, mais à mão, as letras pequenas, e as maiores, menos utilizadas, nas caixas altas. Em perfeito silêncio, para uma maior concentração, ali recolhiam os homens os tipos um a um, para os emparelharem numa pequena régua de encaixes – o componedor. Seguravam a dita régua com a mão esquerda e iam montando os vocábulos da direita para a esquerda, de cabeça para baixo, com espaçadores para as separar. O manuscrito estava preso a um suporte, mesmo à frente dos olhos. As mãos voavam e assim iam formando as linhas de palavras, frases inteiras. No seu caso seriam versos, “uma vasta soma de 8.816 versos”, murmurou o poeta, pensando que demorariam uma eternidade a compor toda a sua epopeia, catando uma letra de cada vez, daqueles cubículos de madeira.

Os homens cuspiam para o chão e limpavam as mãos a desperdíciosde tecido tão sujos, ou mais, que as próprias mãos e, concentrados, olhando o papel, lá iam escrevendo palavras arrevesadas e preenchendo as colunas da bandeja onde se compunha a versão final – o resultado era uma imagem invertida da página a imprimir. Tinham já preparado o texto com o alvará de privilégio, que tinha sido assinado por el-rei – página inteira, a uma só coluna. Faltava apenas preencher um espaço no canto superior esquerdo. “Vai ter um tipo grande com ramúsculos”, esclarece um operário taludo.

O poeta percebeu – “Uma capitular”. Havia uma outra bandeja com o alvará de Frei Bertholameu, já com uma exígua capitular inicial, também a uma coluna. Os dois documentos seriam impressos na portada da obra, para salvaguarda política e eclesiástica. Trabalhavam agora no Poema. A composição tinha já ao alto da página o título e o seu nome – que via por vez primeira em letra de forma (ainda que invertidas).

Luiz Vaz passou os dedos trementes pelas letras de metal e sentiu uma verdadeira comoção. A sua obra alcançava forma e o seu nome estava grafado para sempre. Sobrava também um espaço para a capitular, mas tinha já os primeiros versos:

Tremiam-lhe as mãos e o coração. Naquele momento, perpassaram-lhe pela cabeça mil imagens: a viagem da nau a caminho de Goa; as batalhas; as noites e noites de escrita; as prisões; o naufrágio; novamente as prisões; a fome na ilha de Moçambique – em que abdicara de comida para ter tinta e papel, e de onde fora resgatado pelos amigos; a longa viagem de regresso; as muitas privações; as altercações com Diogo sobre Portugal; o beijo avinagrado de sua mãe; o braço forte de D. Manoel seu fiel protector… “Podiam aquelas letras ser impressas com lágrimas, com sangue?”, perguntou-se baixinho, sabendo que só assim fariam justiça à dor que as ditara…”

 

João Morgado

In: O Livro do Império

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