Meu pai… o pássaro grande!

Uma história de ternura e liberdade. A cumplicidade entre pai e filho...

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João Morgado (Pai) - "João da Barreira"
Conto IN: O Pássaro dos Segredos ____

“…De lancheira na mão e corpo moído, meu pai chegava embrulhado na noite, quando a casa era mais negra, quando o calor do borralho aquecia a sala. Encontrava-me a dormir, quase sempre. Não dava conta dele entrar, simplesmente acordava nos seus braços. Ele dizia que sim, mas era capaz de jurar que não, que não entrava pela porta de casa. Eu achava meu pai enorme, imenso. A porta de casa era pequena para um homem tão grande, dizia eu. Por isso, acreditava que ele entrava pela janela – não que fosse maior que a porta, mas, se pela janela entrava o céu, também podia entrar meu pai; para mim ele tinha a grandeza do céu imenso em claros dias de Verão.

João Morgado (Pai e Filho)

A cada noite, carregava-me ao colo até à cama e deitava-me ao seu lado. Sentia que ali era um ninho – eu, pássaro pequeno, por dentro dos cobertores, enroscado no pássaro grande.

O carinho cheirava a lã quando me aconchegava no calor do seu corpo, me perguntava pelo meu dia e me contava pela milésima vez a história de dois irmãos. “O mais velho pegou no cavalo e num leão e foi à procura de fortuna. Cavalgou dias e dias, até que chegou a um castelo…” E eu adormecia, embalava em sonhos no lugar mais seguro do mundo, no entrelaçado dos seus braços, no rochedo meigo do seu peito, com as mãos por dentro da sua camisola interior, branca, sentindo-lhe o calor da pele. Nunca voltaria a sentir tamanha segurança em mais lugar nenhum do mundo…”

 

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João Morgado 

In: O Pássaro dos Segredos

Ed: Kreamus

Compra de exemplares autografados: kreamus@gmail.com 

 


 

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«Um hino ao amor, mas também à infância, à figura tutelar do pai, e à família como núcleo que preenchia “o ninho”, a casa carregada de ternura e de uma felicidade como que enclausurada dentro de um ovo que viria, mais tarde, a eclodir…»

Joaquim Pessoa, Poeta

 

 

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