As mulheres precisam de sol…

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A relação das mulher com as palavras __ In: Diário dos Imperfeitos ____

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“COMEÇAVA UMA VIAGEM para a eternidade e não sabia. Com delicadeza, compus-lhe a sua pose altiva, ainda que despida de qualquer emoção, e ali ficou, numa cegueira de olhos abertos. Morremos muito durante a vida, pensei eu. Sem reconhecer a morte, respiramos com ela inúmeras vezes; beija-nos na boca, rouba-nos o ar, mas deixa-nos ainda fôlego para nos sentirmos vivos e continuarmos a morrer devagar. Assim estava ela, sentada, tão viva quanto morta. Respirando e ao mesmo tempo querendo ressuscitar.

«Sempre fui feliz com as mulheres que não amei…», diz-me o filósofo de vida e pintor de sóis nas paredes da minha casa. «O amor é a maior imperfeição humana, arrebata-nos, vira-nos do avesso…».

A trincha dança pela parede e deixa línguas de amarelo-torrado no branco sujo de outrora. Dá passadas curtas na serapilheira velha espalhada pelo chão, onde caiem alguns os pingos soltos de tinta.

«Isso do amor é perigoso, muito perigoso…», – repete ele. «Um dia somos livres, todo o céu parece pouco e depois, de um momento para o outro, passamos a desejar alguém e tornamo-nos uma ave tonta a voar de sul para norte, a sonhar com uma gaiola!»

Voltei a sondar os olhos dela na esperança de encontrar um sinal, um pestanejar que fosse. Nada. Apenas uma sombra, como se fosse um volto já das lojas vazias do centro comercial.

«Estás bem? Precisas alguma coisa?», perguntei, passando-lhe a mão pela franja do cabelo que ocultava uma longa cicatriz na testa. Voltou a repuxar o cabelo para a frente e permaneceu em silêncio – na sua candura de boneca imperfeita.

“A Gaivota esteve toda a tarde na varanda. Bebeu sol pelo rosto, contou os pássaros, imaginou desenhos nas nuvens; muda e calada, conversou com o vento.” – «DIÁRIO DOS IMPERFEITOS» – Romance

«As mulheres caladas são perigosas. Comem as palavras e transformam-nas em veneno», filosofava o pintor. «Devemos calar uma mulher com um beijo, mas nunca se deve beijar uma mulher calada. É perigoso, muito perigoso…», repetia enquanto dava cor às paredes.

«Dentro de uma mulher cabe um homem, cabe um filho, cabe o mundo inteiro se preciso for… menos as palavras. As mulheres não foram feitas para terem palavras dentro delas. Por isso falam tanto. Precisam falar para não morrerem envenenadas…»

Lembrou-me o coro das tragédias gregas, sempre a prenunciar as tragédias. Dissimulei. Peguei na maleta branca que trouxera do hospital e tirei meia dúzia de coisas dela que coloquei no armário da casa de banho – comprimidos, escova dos cabelos, escova e pasta de dentes, creme hidratante e um pequeno estojo de maquilhagem oferecido por uma das enfermeiras. Resumia-se a isto o seu espólio.

O silêncio incomodava-me. Ouvia-se na minha cabeça o esquiar da trincha sobre o branco da parede e o assobio do filósofo, momentaneamente sem palavras. Liguei a televisão. De olhos perdidos, ela manteve-se imperturbável sem olhar o ecrã. Já o pintor, entendendo que o som do aparelho lhe roubava o centro do palco, tratou logo de elevar a voz:

«Quando estamos apaixonados temos sempre alguém dentro de nós que nos prende, nos torna pesados, nos afunda… mais tarde ou mais cedo, asfixiamos! Por isso lhe disse, sempre fui feliz com as mulheres que não amei… porque essas foram as únicas que sempre me deixaram livre, nunca me sufocaram! Entende?».

O verbo sufocar lembrou-me o calor resistente daquele fim de tarde. Liguei a ventoinha da sala e fui para a cozinha. Estava com fome, apetecia-me algo ligeiro. Cortei umas tiras de frango cozido que alourei na frigideira com manteiga. Deitei sal e pimenta e deixei arrefecer.
«Você nunca se apaixonou…?», perguntei.

«Quem? Eu? Claro que sim… por isso sei o que digo!», respondeu de pronto, baixando a trincha ensopada de amarelo. E continuou: «Já viu? O homem é o único animal que se apaixona. Por isso, é que o homem é o único animal que chora!»

(…)

Abri um pouco mais a persiana e deixei que o sol coado pelos cortinados lhe escorresse no rosto, como a tinta do pintor pela parede, dando-lhe uma cor adocicada de verão. Senti os seus olhos revirarem em direcção à luz. Era um primeiro sinal. Permaneci ainda na vaga esperança de um sorriso. Nada. Mas de repente, olhou o prato e levou lentamente a comida à boca, mastigando sem pressa e, aparentemente, sem prazer. Mastigando apenas.

«Está a ver… é o milagre da luz», volveu o pintor.

«As mulheres são como as plantas, precisam de sol. Mas as mulheres são vivas por dentro e vivas por fora, precisam de sol no corpo e de sol no coração. Quando as iluminamos só por fora, ficam viçosas de pele mas desabitadas. Quando as iluminamos só por dentro, as flores brotam no seu interior mas sufocam o seu perfume. As mulheres só são felizes, quando alguém as abraça com um sol em cada mão!»

«Porque se separou da sua mulher?», perguntei eu.

«Porque também eu era imperfeito. Em vez de a levar para o sol, sentei-me com ela debaixo da lua!», retorquiu entre dois afagos de tinta na parede fria. Eu fiquei olhando-o de longe, seguindo com os olhos o amarelo dourado da trincha, como que pintando vagamente um sol no branco-lua da parede. Depois olhei para ela, branca, com a pele cor de luar e, pensei: «Ainda há tempo para o sol…»

Abri mais e mais a janela, afastei os cortinados, deixei que a luz do fim de tarde lhe banhasse o rosto de pele clara, onde um princípio de rugas anunciava o aproximar dos trinta anos.

«Ainda há tempo para o sol…», repetia eu…”

 

 

João Morgado IN: Diário dos Imperfeitos

Romance, 2017, Casa das Letras (LEYA)

Prémio Literário Virgílio Ferreira 2012

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«Parece que João Morgado já leu tudo sobre o amor, de Ovídeo a Stendhal (…) tem uma escrita compacta e assertiva.  Isto é, cheia de pensamentos categóricos, de uma escrita vivida, conclusiva…»

Manuel da Silva Ramos

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